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NoveMeses nº11

perante a vida, mas ao mesmo tempo uma descontração que é uma das maiores qualidades do ser humano e que nos ajuda, em muito, a enfrentar o quotidiano e a angústia existencial. O humor desconstrói muita da ansiedade e do drama, por vezes exagerado, que introduzimos nas nossas vidas. Como é que o podem fazer? Tendo (leia-se, arranjando) tempo, não sobrecarregando os momentos com excesso de regras e de espartilhos, e pensando que, mais importante do que estar novamente a ver as mesmas notícias na televisão ou agarrado obsessivamente ao facebook, talvez não seja disparatado reganhar o prazer de estar com outras pessoas, designadamente os filhos. Ter filhos não é só produzi-los ou “geri-los”… Qual é o papel dos pais nas brincadeiras dos filhos? Muito grande. Embora considere indispensável que, desde cedo (desde bebé), uma criança aprenda a brincar sozinha, o que é um excelente fator protetor para a vida futura porque nos ajuda a ter um mundo interior mais rico, o que serve de airbag quando a vida nos traz momentos maus e de desamparo ou abandono, 22 as crianças precisam dos pais como companheiros de brincadeiras, mantendo o seu estatuto de pais (não andamos todos no mesmo infantário!) mas com cumplicidade e amizade. Aliás, o que estou a referir não é apenas para crianças pequenas, mas aplica-se a adolescentes também, e porventura durante toda a vida, mesmo quando os filhos já são adultos. Há diferenças entre brincar co m a mãe e brincar co m o pai? Sim. Diferenças naturais porque desempenham funções complementares, mesmo em casais do mesmo sexo. Os homens foram, durante milénios, os promotores da brincadeira exterior, especialmente com os rapazes, os grandes desafiadores dos espaços lúdicos exteriores e dos jogos, quando não estavam a caçar ou a fazer a guerra. Atualmente, contudo, pais e mães brincam, embora a brincadeira seja, ainda, um atributo natural e espontâneo dos pais, em geral. Dou um exemplo: uma mãe terá a tendência em contar uma história, como a dos Três Porquinhos, lendo o livro. Um pai fará uma dramatização, inventará vozes, desfiará o enredo, gozará com as situações… O registo é diferente. Diz-nos num dos seus livros que “os pais são, ainda, o brinquedo favorito do bebé”. Po rquê? São. Os bebés descobrem a vida a partir dos pais e estes são muito melhores do que qualquer brinquedo que exista numa loja de brinquedos. Têm cheiro, toque, falam, ouvem… Vêm equipados com muitas funções e até têm pilhas que duram eternidades… A sério: nós, pais, somos os melhores brinquedos dos nossos bebés. Po rque é que é bom para a criança brincar? Brincar não é uma atividade feita de gestos gratuitos e sem nexo, como muitas vezes a desconsideramos, porque o que a criança faz é supostamente «coisa de criança». Não! Brincar é uma das atividades mais elaboradas porque, para além de indispensável, desenvolve a criatividade, o imaginário, a imaginação, a alternância, o sentido figurativo e representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários. Não há outra atividade tão completa como o brincar. Dizia o Professor Robert Debré, um grande pediatra, fundador da Unicef, que até as amibas brincam: após uma fase em que agitam os seus prolongamentos em busca de comida, continuam a fazê-lo, nem que seja para tocar em outras amibas – se não é para recolher alimentos, então fazem-no provavelmente para brincar. Que erros devem os pais evitar neste co ntexto ? Não basta pegar nuns quantos brinquedos e bonecos e dar a uma criança para que esta se sinta feliz. Pelo contrário, vai sentir-se, em determinados momentos, muito frustrada e infeliz. Os bebés precisam de aprender a brincar sozinhos, e fazem-no enquanto o brinquedo permite exploração e descoberta, mas logo esgotam as suas possibilidades individuais e precisam de quem lhes aponte mais soluções para o objeto ou para o jogo. É por isso que brincar com uma criança é estar com essa criança. Estar disponível, estar ao nível dela (no chão, olhos nos olhos), ter tempo e não dar ao bebé a sensação de que se está sempre com pressa e a despachá-lo. Não se trata de sermos escravos dos nossos filhos, mas de estarmos disponíveis e tentar encontrar esse tempo que é escasso mas que pode ser arranjado. Às vezes entramos num registo um bocado bizarro: queixamonos do pouco tempo que temos para estar com os nossos filhos e estragamos esse tempo com palermices que não valem nada, com regras e regrinhas, a que acresce uma parentalidade


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