Consultas de vigilância

Escrito por: Dra. Marcela Forjaz, Ginecologista-Obstetra

O diagnóstico de uma gravidez é um marco também para se tomar consciência de que, não se tratando de uma doença, exige cuidados especiais e vigilância médica.

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Quando a vareta do teste de gravidez mostra uma linha, por muito ténue que seja…está escrito, nas instruções, que o teste é positivo: está grávida! O que não está escrito, nem ténue nem claramente, é o quanto a sua vida muda a partir desse momento!

Mesmo que seja daquelas pessoas que “médicos nem vê-los”, com toda a naturalidade vai surgir na sua cabeça a incontornável questão: “tenho de ir a uma consulta...”. Mesmo sendo saudável e que se lembre de ir ao médico apenas em garota, quando a sua mãe a levava, tem a noção de que o seu novo estado a obriga a socorrer-se de alguém que “vos” vigie, que a vai orientar durante a gravidez, alguém que possa assegurar que tudo vai correr bem, que possa responder às suas dúvidas, que possa apaziguar os seus receios, que a possa conduzir até um parto seguro e feliz.

Na verdade, idealmente teria preparado a gravidez numa consulta prévia, de forma a avaliar o seu estado geral, verificar as suas condições para albergar um bebé e corrigir situações que pudessem interferir com a gravidez.
De qualquer forma, o diagnóstico de uma gravidez é um marco também para se tomar consciência de que, não se tratando de uma doença, exige no entanto cuidados especiais e vigilância médica.

Momentos-chave

A acessibilidade aos cuidados de saúde materno-infantil é uma mais-valia no nosso País e a melhoria da assistência ao longo dos anos tem-se traduzido por muito melhores resultados nos marcadores de saúde materna e infantil. Nos últimos 30 anos assistimos a uma melhoria desses cuidados que resultou numa redução da taxa de mortalidade materna e perinatal, sendo neste momento das mais baixas da Europa. Por algum motivo Portugal ocupa uma posição cimeira na lista de «países bons para as mulheres serem mães» (13º lugar), à escala mundial!

Assim, mesmo as mamãs mais descontraídas têm a noção de que a vigilância da sua gravidez não se resume a medir a barriga para verificar se está a crescer ao ritmo esperado, pesar para controlar os devaneios gastronómicos ou medir a tensão arterial... Há alguns momentos-chave na vigilância da gravidez, pelo menos um por trimestre mas, para além disso, enquanto a mãe se delicia com os movimentos do seu bebé o médico assistente vai tomando conta de aspetos fundamentais para que tudo siga o seu curso, sem riscos, ou antecipando eventuais complicações.

Exames de rastreio ou diagnóstico pré-natal

No primeiro trimestre, a par com a informação que o médico presta sobre hábitos de vida saudáveis e que constituirão um «depósito a prazo» de saúde para o embrião/feto, é importante a realização de exames de rastreio ou diagnóstico pré-natal.

Há alterações que podem ser detetadas nesta fase e que podem condicionar decisões importantes relativamente à evolução da gravidez. Para realizar estes exames de forma a que os seus resultados sejam fiáveis há que ter uma ideia correta da idade gestacional, o que se consegue com uma ecografia precoce, pois alguns deles terão de ser realizados em intervalos de tempo bem definidos, perdendo o valor se ultrapassam o limite de idade gestacional definido para esse efeito. Não é nada agradável ter um casal à frente e experimentar o desalento de já não poder colher alguma informação apenas porque o casal deixou escapar o tempo adequado para o fazer! É nesta fase que se colhe a maior informação sobre o risco de o feto ser portador de alguma anomalia cromossómica, por exemplo.

Ecografia morfológica e teste da diabetes gestacional

No segundo trimestre há também dados fundamentais a avaliar, entre os quais a avaliação da morfologia do feto – a ecografia morfológica – e as análises realizadas à grávida, entre as quais o teste de diagnóstico da diabetes gestacional. Na ecografia morfológica avalia-se os órgãos do feto em pormenor, no sentido de verificar se existe alguma anomalia e se estão reunidas as condições para que ele se desenvolva bem.

Já as análises que se vão realizando não são pedidas de forma anárquica, mas tendo em conta os eventos associados à gravidez: sabendo-se que é no final do segundo trimestre que aumenta uma hormona que promove o aparecimento da diabetes, é nesta altura que se faz a prova de diabetes; sabendo o tempo necessário ao desenvolvimento de anticorpos para determinadas afeções, é respeitando esse intervalo de tempo que se poderá repetir a análise de diagnóstico dessas situações.

Avaliação da posição do feto e desvios da normalidade

Já no terceiro trimestre, para além da preocupação em verificar se o feto cresce de acordo com o que é esperado e se demonstra sinais de bem-estar, há ainda que avaliar a sua posição (tendo em vista a via de parto); pelo menos aqui será importante o diálogo com a grávida sobre as suas expectativas para o parto, desmistificar alguns receios que possa demonstrar e disponibilizar-lhe toda a informação de que necessite para se preparar para esse acontecimento.

Transversal a toda a gravidez é a vigilância de desvios da normalidade relativamente a parâmetros como o peso, a tensão arterial...A preocupação com o peso não tem apenas a ver com questões estéticas, mas com os riscos associados a um aumento de peso exagerado como a hipertensão, o também aumento excessivo de peso do feto, o consequente aumento de complicações no parto e ainda o risco de diabetes gestacional e de diabetes para o próprio bebé quando for adulto...

Outro parâmetro que deverá ser sempre vigiado será a tensão arterial: são já do conhecimento comum a maior parte das complicações associadas à hipertensão, quer para a mãe quer para o filho, pelo que o gesto simples integrado na consulta da sua medição permite uma medicação atempada em caso de alterações e a prevenção de situações mais complicadas.

Não há desculpa para não vigiar

Embora haja protocolos de seguimento da grávida, a conduta do médico ao longo da vigilância de cada gravidez é flexibilizada e adaptada a cada grávida, tendo em consideração os antecedentes clínicos da grávida, o percurso que esta vai fazendo ao longo da sua gestação, a necessidade ou não de cuidados especiais e o seu perfil psicológico. Felizmente o acesso aos cuidados de saúde materna é universal e a legislação protege essa necessidade não penalizando o absentismo ao trabalho no âmbito das consultas pré-natais. Não há desculpa para que aconteçam ainda gravidezes não vigiadas! Embora a Natureza trabalhe geralmente no sentido de um final feliz, outros haverá que, menos felizes, poderiam ser resolvidos com maior facilidade se houvesse informação prévia de alterações que permitam à equipa que assiste ao parto preparar-se. É importante que se tenha a noção de que, ao vigiar-se uma gravidez, está-se a proteger uma mãe e sobretudo um ser que ainda não manifesta a sua vontade e está dependente de que quem o carrega tome as medidas adequadas ao seu desenvolvimento, de forma a que aconteça de forma harmoniosa e segura.

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