Planeamento familiar durante a amamentação

Escrito por: Paula Braga
Com os depoimentos e revisão de: Sara Ramos, Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia.

A seleção da contraceção mais adequada para a mulher lactante/casal no pós-parto deve ser abordada pelos profissionais de saúde durante a gravidez e reforçada no puerpério. São vários os fatores que determinam a escolha do método contracetivo. Saiba quais. 

Planeamento familiar durante a amamentação class=

Um correto planeamento familiar tem como objetivo definir quantos filhos o casal quer ter, qual o intervalo entre cada um e qual o momento certo para acontecer. A decisão é sempre do casal e ambos devem pensar, de forma séria e esclarecida, sobre a prevenção e a reprodução. O casal deve conhecer as vantagens e desvantagens de cada método contracetivo para melhor adequá-lo ao seu estilo de vida, à sua disponibilidade económica e às suas crenças religiosas.

No puerpério em particular – período que vai desde a expulsão da placenta até seis a oito semanas após o parto –, e depois durante a amamentação que acontece idealmente nos primeiros seis meses de vida do bebé, o planeamento familiar requer uma atenção redobrada para evitar uma gravidez indesejada, num período em que o casal deverá estar completamente disponível para o seu bebé.

A Direção-Geral de Saúde (DGS) recomenda que “o intervalo entre uma e outra gravidez é um fator determinante da morbilidade e mortalidade perinatal, infantil e materna, havendo evidência de que um intervalo inferior a dois anos tem impacto negativo na saúde da mãe e do bebé”. Face a esta advertência e a pensar na preservação da saúde da mulher e do bebé é importante ponderar cuidadosamente a escolha de um contracetivo.

Por norma, a temática dos métodos anticoncecionais a utilizar no pós-parto é introduzida durante a vigilância pré-natal, mas “o melhor é mesmo aguardar pela consulta de revisão do parto que acontece entre as quatro e as seis semanas após o mesmo para esclarecer tudo”, elucida Sara Ramos, enfermeira especialista em saúde materna e obstetrícia.

Nesta consulta, onde os profissionais de saúde avaliam a condição física da mãe após o parto, bem como a sua saúde de um modo geral, uma vez que o organismo encontra-se numa fase de reajuste com o objetivo de recuperar a forma física anterior à gravidez, procure saber também quais são as diferentes opções anticoncecionais existentes no mercado, bem como as vantagens e desvantagens da utilização de cada um dos métodos para o casal, atendendo a fatores como: processo fisiológico do puerpério; se a mãe amamenta ou não em exclusivo; expetativas do casal face à retoma da atividade sexual, idade do casal; crenças religiosas; eficácia do método na prevenção da gravidez; efeitos secundários do método contracetivo; custo do mesmo; se é fácil de obter; se protege contra infeções de transmissão sexual; se o casal quer ter ou não mais filhos, entre outras preocupações.

É possível viver a sexualidade de forma saudável, feliz e segura durante o período de puerpério e da amamentação, mas informe-se primeiro sobre todas as possibilidades para tomar as decisões mais adequadas ao seu caso.

LAM COMO MÉTODO CONTRACETIVO
Sabia que a amamentação pode funcionar como um método anticoncecional ao alcance de todas as mulheres durante os primeiros seis meses após o parto? Sim, é verdade, mas quando praticado corretamente, ou seja, a mulher tem de estar a amamentar em exclusivo, o que significa que o bebé é alimentado apenas e unicamente de leite materno durante os primeiros seis meses, sem que lhe seja oferecido outro tipo de líquidos como água ou chá ou mesmo alimentos sólidos. A mulher durante este período de seis meses após o parto deve manter-se em amenorreia, ou seja, não deve menstruar.

Este conhecido Método da Amenorreia Lactacional ou LAM evita a gravidez porque o bebé ao ser amamentado várias vezes ao dia e com muita intensidade de sucção faz com que o organismo feminino iniba a ovulação, logo a mulher não entra no período fértil. A probabilidade de não engravidar é de 98%, valor semelhante ao da proteção providenciada pela pilula contracetiva. Contudo, há um risco de 2% ou até superior caso a mãe não cumpra na íntegra a amamentação em exclusivo, o que requer amamentar, pelo menos, de quatro em quatro horas durante o dia e de seis em seis horas à noite.

“A fertilidade também depende de mãe para mãe, uma vez que existem mulheres em que o período menstrual surge nos primeiros meses de amamentação, enquanto outras podem estar até seis meses depois do parto sem estarem menstruadas. É importante referir que assim que se verifique uma diminuição na amamentação, a proteção natural contracetiva também diminui e deve considerar-se a hipótese de recorrer a outros métodos contracetivos”, esclarece Sara Ramos.

De acordo com as indicações da DGS, o método LAM é temporário, não protege face a infeções de transmissão sexual (ITS) e é contraindicado em caso de VIH positivo ou SIDA e em situação de uso continuado de antidepressivos, lítio, alguns anticoagulantes e outros fármacos usados pela mãe.

OUTROS MÉTODOS CONTRACETIVOS
Existem vários métodos contracetivos que podem ser adotados pelo casal no período em que a mãe amamenta.

Conheça quais e as caraterísticas de cada um:

Vasectomia ou laqueação de trompas – São métodos permanentes e devem ser uma opção se o casal não pretender ter mais filhos. Se o casal for muito jovem, não é um método recomendado.

No caso da vasectomia, o procedimento pode realizar-se imediatamente após o parto e a DGS esclarece que caso a vasectomia tenha ocorrido nos primeiros seis meses de gravidez da companheira, já é eficaz depois do parto.
A laqueação de trompas é recomendável que aconteça nos primeiros sete dias após o parto ou seis semanas após o nascimento do bebé.

DIU (Dispositivo intra-uterino) com cobre – Este dispositivo pode ser colocado nas primeiras 48 horas após o parto ou a partir do primeiro mês após o parto. Apesar de grande eficácia, importa ressalvar os riscos associados à colocação deste método, como uma eventual expulsão ou perfuração uterina (especialmente se colocado fora do timing previsto), infeção pélvica, perda hemáticas abundantes ou de gravidez ectópica.

DIU com Levonorgestrel (hormonal) – Neste caso deve ser colocado apenas a partir da consulta de revisão de puerpério que acontece normalmente por volta das quatro/seis semanas após o parto.

Contraceção oral combinada, anel vaginal ou adesivo – No caso de amamentar, deve utilizar somente estes métodos seis meses após o parto, atendendo a que podem interferir com a produção de leite materno, tanto em termos de quantidade como de qualidade. Se não amamenta pode utilizar 21 dias após o parto ou, ainda, se optou por uma amamentação mista, não exclusiva, recorra a estes métodos somente seis semanas após o parto.

Contraceção hormonal oral apenas com progestativo, injetável trimestral e implante subcutâneo – Qualquer um destes métodos podem ser iniciados seis semanas após o parto, sem interferência na qualidade e na quantidade do leite materno, caso a mãe amamente em exclusivo. Se não amamenta podem ser uma opção imediata.

Preservativo – Pode ser usado imediatamente a seguir ao parto porque não afeta o processo do leite materno, mas pode ser desconfortável para a mulher nas primeiras semanas a seguir ao parto por causa da secura vaginal e da involução das estruturas ginecológicas femininas.

Diafragma – Se optar por este contracetivo tem de ter o cuidado de reajustar o seu tamanho às novas alterações anatómicas, mas tenha também em atenção a secura vaginal pós-parto que poderá dificultar a colocação do mesmo. Segundo indicações da DGS, o diafragma só pode ser usado seis semanas após o parto.

Métodos naturais – Não interferem com o aleitamento materno, mas implicam períodos de abstinência sexual e conhecimento rigoroso do ciclo fértil da mulher. Falamos de métodos como o do calendário ou de auto-observação, mas neste período pós-parto não são considerados os mais fiáveis, uma vez que durante a amamentação os sinais de fertilidade estão encobertos pelas caraterísticas específicas do puerpério e recuperação biopsicossocial após o parto. O método do calendário só deve mesmo ser utilizado depois de três ciclos menstruais regulares.

Métodos contracetivos
* LAM
* Vasectomia ou laqueação de trompas
* DIU (Dispositivo intra-uterino) de cobre
* DIU com Levonorgestrel (hormonal)
* Contraceção oral combinada, anel vaginal ou adesivo
* Contraceção hormonal oral apenas com progestativo
* Contraceção injetável
* Implante subcutâneo
* Preservativo
* Diafragma
* Métodos naturais

Opções anticoncecionais dependem de:
1 – Processo fisiológico do puerpério
2 – Amamentação em exclusivo ou não
3 – Idade do casal
4 – Eficácia do método na prevenção da gravidez
5 – Efeitos secundários do método contracetivo
6 – Crenças religiosas
7 – Custo do mesmo
8 – Proteção contra ITS
9 – Vontade de ter mais filhos
10 – Doenças crónicas maternas
11 – Hábitos nocivos: tabaco, álcool ou outras drogas

Outros Artigos deste tema

Subscreva a Newsletter

Receba informação semanal adaptada ao desenvolvimento da sua gravidez.