Papel do pai na amamentação

Escrito por: Amélia Cunha, Enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstetrícia no UCC Norton de Matos.

A participação ativa do pai deve sentir-se em todos os momentos do processo: planeamento familiar, gravidez, parto e pós-parto.

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Com a chegada do novo elemento à família, os pais são levados a repensar os seus papéis em busca de uma maior simetria nas tarefas domésticas e no cuidar dos filhos, além das suas atividades profissionais. Convém relembrar que existe uma diversidade de famílias para além do modelo tradicional.

A participação ativa dos homens em qualquer tipo de família deve ser notar-se em todos os momentos do processo de formação de uma família: planeamento familiar, gravidez, parto e pós parto.

Todavia, aos homens, ao inverso do que acontece com as mulheres, nem sempre é dada oportunidades de obter informação, trocar experiências ou mesmo de desenvolver habilidades no cuidar. Apesar de ainda haver preconceitos no meio social em relação à participação dos pais nos cuidados aos filhos, constatamos que eles são capazes de desempenhar todas as tarefas (higiene, vestuário, alimentação, saúde, instrução, entre outras) tão bem ou melhor do que muitas mulheres. Um pai motivado pode tornar-se um ótimo cuidador e um elemento crucial na vida do filho e da família.

Muitas vezes, são as mulheres que não dão oportunidade aos pais de demonstrarem as suas competências parentais. Cada pai tem a sua maneira de cuidar e nem sempre esta vai ao encontro das expetativas da mãe. Eventuais críticas ao seu desempenho levarão a que deixe de reclamar a sua participação. Ambos estão a fazer uma caminhada no mundo da parentalidade, procurando como referência os seus pais, amigos já com filhos, os profissionais de saúde e outras fontes de informação. Com diferentes formas de atuar, os pais só enriquecem a vida do filho e o vínculo fica fortalecido.

Os estudos revelam que há cada vez mais pais a cuidar dos seus filhos, e logo após o nascimento. Contribuindo positivamente para o desenvolvimento físico, emocional, intelectual e social da criança. A saúde das mulheres é favorecida pela partilha das tarefas de casa e no cuidar dos filhos, ficando mais disponível para dar de mamar. Também a saúde mental e física do pai melhora, há um aumento da autoestima, confiança, segurança e estabilidade. Esta induz uma maior probabilidade de sucesso no aleitamento materno.

Com base na evidência cientifica, os homens que participam ativamente nos cuidados também revelam menor risco de alcoolismo e de violência, contribuindo para o bem-estar da família e da sociedade. Os que escutam e aconselham os seus filhos são mais felizes, a relação amorosa entre o casal fica mais estreita e revela uma maior intimidade.

Durante a gestação, as grávidas são questionadas sobre qual o primeiro alimento que pensam dar ao seu filho quando nascer, revelando na sua grande maioria a intenção de amamentar. Verifica-se desde muito cedo que a alimentação do bebé é uma preocupação dos pais.

Amamentar: uma decisão a dois

A decisão de amamentar deve ser compartilhada entre o pai e a mãe, embora seja esta que tem a última palavra. Para que seja uma decisão consciente é importante que ambos conheçam as vantagens de optarem pelo aleitamento materno, não só para o bebé como também para a mãe, família, sociedade e ambiente.

A Organização Mundial de Saúde recomenda amamentar exclusivamente durante os primeiros seis meses de vida e, após este período, introduzir os alimentos gradualmente, mantendo o leite materno até aos dois anos de idade ou mais, desde que a mãe e o bebé se sintam bem.

O pai, ao participar ativamente na gravidez e ao frequentar as sessões de preparação para o parto e parentalidade, recebe informação sobre vários temas, um dos quais a alimentação infantil e como pode contribuir para o êxito do aleitamento materno.

Estes momentos em que cada família procura suporte pretendem catalisar as suas competências, capacidades e energias, onde a informação e os conhecimentos através de metodologias interativas facilitam a expressão de sentimentos, a troca de experiências e o desenvolvimento de habilidades e competências.

Vantagens de um pai confiante e seguro

Mesmo sem poder substituir a mãe na amamentação, o pai pode participar ativamente no sucesso do aleitamento materno. Aquando do estabelecimento da amamentação, a mãe necessita de apoio emocional, incentivo e de ser valorizada no seu desempenho.

Por ser quem está mais próximo da mãe, o pai pode ajudar no posicionamento desta e do bebé para a amamentação, na vigilância e/ou correção da pega (maneira como o bebé ‘abocanha’ a mama), proporcionar o repouso à mãe no intervalo das mamadas, acalmar o choro do bebé, mudar a fralda, dar o banho e realizar tarefas domésticas.

O pai deve ser incentivado a pegar no recém-nascido logo após o nascimento, a fazer o contacto pele com pele e a transportá-lo no pano porta bebé. A mulher que estiver a recuperar do parto sentir-se-á apoiada e tem maior disponibilidade para descansar. Por outro lado, o pai valida as suas habilidades. O estar confiante e seguro interfere positivamente na mãe que amamenta e consequentemente prolonga a duração do tempo de aleitamento materno.

Após o parto, a procura de apoio nas redes mais próximas, a formação parental, o curso de massagem infantil e outros eventos são momentos oportunos de partilha, esclarecimento de dúvidas ou confirmação entre pares.

É essencial o pai aproveitar todos os momentos da vida do filho. Para o seu desenvolvimento, há uma lista diversificada e interminável de ações, tais como: cantar, falar, tocar, massajar, dançar, ver, rir, pegar ao colo, escutar, abraçar, embalar, ouvir, sorrir, cuidar da higiene, colocar a dormir, passear, etc.

Um ambiente familiar que promova e apoie o aleitamento materno permite superar de modo impar alguma dificuldade que possa surgir, alcançando o plano delineado para a alimentação do bebé.

Período de Amamentação
Participação do pai
• Apoiar a mãe
• Ajudar a mãe e o bebé no processo de amamentação
• Proporcionar repouso à mãe
• Acalmar o bebé
• Mudar a fralda ao bebé
• Dar banho ao bebé
• Fazer tarefas domésticas
• Esclarecer dúvidas
• Fazer formação (massagem infantil)
• Interagir com o bebé

Bibliografia consultada

Barclay L, Lupton D., The experiences of new fatherhood: a socio-cultural analysis.J Adv Nurs. 1999 Apr;29(4):1013-20.

Carvalho, Maria Luiza Mello de. Cuidado, Sociedade e Gênero: um estudo sobre pais cuidadores. Tese (Doutorado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social). EICOS, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.Disponível http://pos.eicos.psicologia.ufrj.br/wpcontent/uploads/marialuizamello.pdf (data da consulta 27/03/2017).

Instituto Promundo, Cultura Salud/EME / REDMAS / Instituto Noos, Ministério da Saúde / Prefeitura do Rio de Janeiro / Instituto Papai “Manual para o exercício da paternidade e do cuidado” Instituto Promundo. 1ª Edição. Rio de Janeiro. 2014.

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World Health Organization, The optimal duration of exclusive breastfeeding Report of the expert consultation, 2001

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