O segundo parto é mais fácil que o primeiro?

Escrito por: Marcela Forjaz, Ginecologista-Obstetra.

Descubra o que há de verdade nas correntes pró e contra a facilidade de um segundo parto.

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Quase todas as grávidas se questionam sobre se o segundo parto será mais fácil do que o primeiro. A intuição diz-lhes que sim, que o seu corpo já passou pelo processo e como que haverá uma aprendizagem; os receios e o raciocínio teórico podem dar-lhes um juízo contrário, ao admitirem que, sabendo já “ao que vão”, acabam por estar mais temerosas, ou que os segundos bebés podem ser maiores, e esses serem obstáculos a um parto fácil.

Em Obstetrícia aprendemos que, no trabalho de parto, uma nulípara (mulher que nunca teve um parto) e uma multípara apresentarão ritmos díspares em termos de velocidade da dilatação e de descida da apresentação no canal de parto. A primeira, em média, apresentará uma dilatação de cerca de 1cm/hora, na fase ativa do trabalho de parto; já a grávida que já passou por um trabalho de parto terá um ritmo de dilatação um pouco mais acelerado, de 1,2 cm/hora, para a mesma fase. Também a velocidade a que a apresentação (a cabeça, num bebé que esteja cefálico) desce na bacia materna é distinta, sendo mais lenta na nulípara.

Chegado o período expulsivo, a mãe de segunda viagem terá o seu bebé nos braços em média em 20 minutos (podendo chegar a uma hora) e a mãe estreante levará em média 40 minutos, podendo levar duas horas. Porém, mais rápido nem sempre será mais fácil. É um facto também documentado que os segundos bebés são habitualmente maiores do que os primeiros, o que pode representar alguma dificuldade acrescida relativamente à descida na bacia e à duração e linearidade do período expulsivo.

E haverá outras variáveis a introduzir: é relevante se a mãe faz ou não analgesia, e fazendo, de que tipo. Podemos, com a analgesia epidural, por exemplo, conseguir um melhor relaxamento facilitador só por si, de uma mais rápida dilatação do colo. Ou, simplesmente porque a mãe está sem dor e mesmo assim com a mobilidade preservada, poderá utilizar uma bola de Pilates e facilitar assim a descida do seu bebé. Estas mães considerarão muito mais fácil o seu parto do que grávidas com mau controlo da dor, confinadas a uma cama, onde cada contração leva a um esforço para suportar a dor, a uma contração de defesa do seu próprio corpo, em vez de receber cada contração uterina como se o seu corpo a aceitasse plenamente, facilitando-lhe os efeitos que ela deverá causar: a abertura do colo.

Mobilidade, perceção e controlo da dor são assim variáveis relevantes e que poderão não ser exatamente repetíveis no primeiro e segundo parto. Mais uma vez, no entanto, podemos admitir que o primeiro foi uma aprendizagem e, para se tirar o máximo partido desta, a tendência será otimizar as variáveis do segundo parto. Depois, há ainda as condicionantes do principal ator do parto: o bebé. Para além do seu tamanho, há outros fatores pertinentes: a sua “arrumação” para a saída, sendo diferente se vem em posição fetal com pernas fletidas e braços dobrados à frente do peito, ou se vem com uma mão junto à cabeça, se vem com a cabeça bem fletida, bem rodada oferecendo os melhores diâmetros à bacia materna. Se vem simétrico e alinhado ou se inclina a cabeça mais para um dos lados, dificultando a descida. Se o cordão é longo, facilitando a descida ou pelo contrário.

Enfim, também aqui há um número de fatores que podem imprimir maiores ou menores dificuldades à progressão do parto. Finalmente, existe ainda a possível diferença de abordagem do trabalho de parto no que diz respeito ao recurso a gestos ou fármacos que possam diminuir ou aumentar a intensidade, regularidade ou duração das contrações, por vezes adotados como necessidade de verificar sinais de bem-estar do bebé ou abreviar o trabalho de parto pensando no interesse do bebé, em situações em que o seu estado não parece totalmente tranquilizador.

Não há interesse em, de forma gratuita, “despachar” a grávida. Intervém-se na gestão do trabalho de parto geralmente para assegurar que o bebé nasce bem e que a sua mãe fica também bem. Há gestos que podem ser interpretados como uma forma de “despachar” ou como a incapacidade de “não interferir” que se atribui por vezes aos profissionais de saúde; porém, “interferências” como a rotura de membranas podem ter apenas o  intuito de permitir apreciar a cor do líquido amniótico no caso de se necessitar de mais dados sobre o bem estar do bebé, ou juntar uma ocitocina pode também ter a intenção de acelerar o parto porque se depreende por alguma razão que o bebé precisará de “sair” com alguma rapidez ou ainda, em alguns casos, diminuir as contrações pode ser com o objetivo de corrigir a atividade de um útero que “exagera” na sua contractilidade e que está dessa forma a prejudicar o bebé.

Afinal, após todas estas considerações, diria que a Natureza traçou o seu plano no sentido de facilitar a procriação tornando cada parto mais rápido e fácil do que o anterior, mesmo com a possibilidade de que os bebés vão sendo maiores, como se o corpo, feito um caminho uma primeira vez, em velocidade de cruzeiro só tivesse que repetir aquele percurso, cada vez com maior habilidade, eficácia e engenho, mesmo que o reconhecimento do terreno proporcione algum receio de determinadas passagens. No entanto, haverá variáveis da própria Natureza e humanas, técnicas, que poderão influenciar o trajeto e as opções que se podem ir tomando a cada passo, e o resultado final será que cada parto poderá ser diferente do anterior, tendencialmente melhor, mas sempre uma experiência única e irrepetível. 

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