Cesariana eletiva a pedido da mulher: vantagens e riscos

Escrito por: Iolanda Veríssimo
Com os depoimentos e revisão de: Diogo Ayres de Campos, Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Diretor do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, Presidente-eleito da European Association of Perintal Medicine.

Atualmente a preferência da mulher por um parto por cesariana é tida em consideração no momento de preparar o parto. Saiba no que consiste a cesariana eletiva a pedido da mulher e conheça as vantagens e riscos associados a esta opção.

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A realização de um parto seguro e confortável, que permita o nascimento saudável do bebé, é um objetivo presente na grávida e nos profissionais de saúde que a acompanham desde o início da gestação.

Quando não estão reunidas as condições necessárias para um parto normal, a cesariana - intervenção cirúrgica que permite retirar o feto e a placenta através da incisão das paredes abdominal e do útero - é a alternativa recomendada para salvaguardar o bem-estar e a segurança da grávida e do bebé.

Cesariana eletiva ou programada
A maior parte das cesarianas são realizadas quando o trabalho de parto não progride normalmente ou quando existe algum risco iminente para a saúde do bebé ou da mulher. No entanto, como explica Diogo Ayres de Campos, Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e Diretor do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, a cesariana nem sempre decorre de uma necessidade urgente de encontrar uma alternativa ao parto natural, podendo também ser eletiva ou programada.

“A cesariana eletiva, também conhecida como cesariana programada, é aquela que não é agendada para o próprio dia. Dentro das cesarianas programadas, a grande maioria tem uma indicação de saúde para serem realizadas. Nalguns países e nalguns hospitais existe a possibilidade de ser solicitada pela grávida – são as chamadas “cesarianas a pedido”, pouco frequentes na medicina pública e mais frequentes na medicina privada”, explica o especialista.

Razões para realizar uma cesariana
Há diversas razões que podem conduzir à realização de uma cesariana. De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), entre os motivos principais cientificamente aceites para a realização de um parto por cesariana, estão:

- Suspeita de baixa oxigenação fetal
- Tentativa falhada de indução do trabalho de parto;
- Suspeita de incompatibilidade feto-pélvica;
- Anomalia fetal que contraindica o parto vaginal;
- Patologia própria da gravidez (por exemplo, descolamento da placenta, placenta prévia, etc. );
- Má apresentação fetal (por exemplo, situação fetal transversa, apresentação pélvica modo pés);
- Gravidez múltipla com o primeiro feto não-cefálico;
- Cirurgia uterina prévia (por exemplo, duas ou mais cesarianas prévias)
- Patologia materna que contraindica o parto vaginal (por exemplo, doença cardiovascular ou pulmonar grave, doença inflamatória intestinal com envolvimento anal, carcinoma invasor do colo, etc. ).

Quando a grávida pede uma cesariana
Atualmente, a grávida pode optar por um parto por cesariana, mesmo sem indicações cirúrgicas.

Na opinião de Diogo Ayres de Campos, há vários fatores que podem levar a que a grávida opte por esta via quando não existem razões médicas a justificá-la. Entre eles estão, por exemplo, o medo da dor no trabalho de parto e do corte nas áreas íntimas, o condicionamento da vida sexual futura, entre outros aspetos que podem gerar ansiedade na mulher.

“A maior parte das cesarianas a pedido são motivadas por um grande receio de ter um parto normal. Este receio é geralmente devido a experiências muito negativas com partos anteriores, com a sexualidade, com exames ginecológicos prévios. Por vezes deve-se apenas a más experiências a estes níveis transmitidas por terceiros”, esclarece o especialista.

No entanto, mesmo que os médicos tentem ir ao encontro dos desejos e expectativas da futura mãe, a segurança está em primeiro lugar. Para chegar a uma decisão final, os profissionais de saúde irão apontar todos os benefícios de saúde do parto normal e tentar dissipar os receios e inquietações pré-existentes sobre este assunto.

“O ponto mais importantes a reter é: a cesariana tem maiores riscos para a mãe e para o bebé, não devendo ser considerada sem que haja um motivo de saúde”, recomenda Diogo Ayres de Campos.

É por isso imprescindível que a futura mãe procure encontrar informações confiáveis a este respeito, tirando todas as dúvidas que necessita de ver respondidas.

Vantagens da cesariana
A opção pela cesariana programada traz à grávida vantagens que podem ser importantes para algumas pessoas.

"Sobretudo na medicina privada, a cesariana programada permite escolher a equipa de saúde presente", explica Diogo Ayres de Campos. Da mesma maneira, o parto normal aumenta ligeiramente o risco de incontinência urinária e de uma descida (prolapso) dos órgãos genitais no futuro, sobretudo em idades mais avançadas.

"As mulheres cujo parto ocorre por cesariana têm um risco cerca de 40% menor de vir a ter estas complicações, mas a cesariana não impede totalmente que elas ocorram", esclarece o especialista.

Riscos da cesariana
A cesariana é geralmente um procedimento bastante seguro, mas não deixa de ser uma cirurgia, e como tal comporta riscos superiores ao parto normal, que devem ser tidos em consideração pela grávida caso não haja razões médicas para este tipo de intervenção.

“Como qualquer outra cirurgia, a cesariana tem riscos associados, o que faz com que seja considerada menos segura do que o parto normal. Do ponto de vista materno, a cesariana implica uma recuperação mais lenta, uma estadia hospitalar mais longa, e mais dor abdominal”, descreve Diogo Ayres de Campos.

De acordo com o especialista, as complicações maternas graves num parto normal ou numa cesariana são “extremamente raras”. Contudo, são 4-5 vezes mais frequentes na cesariana. “Embora os números absolutos sejam pequenos, a cesariana tem duas vezes mais complicações anestésicas, 31 vezes mais complicações cirúrgicas (lesões da bexiga e do intestino), 11 vezes mais infeção no pós-parto imediato, 4 vezes mais trombose venosa (aparecimento de coágulos nas veias, geralmente das pernas) e embolia pulmonar (deslocamento desses coágulos para os pulmões)”, enumera o especialista, lembrando que, na cesariana realizada durante o trabalho de parto, estes riscos são ligeiramente maiores do que na cesariana programada.

No que toca à recuperação pós-operatória, apesar de existirem hoje fármacos eficazes para controlar a dor neste período, a recuperação desta intervenção cirúrgica é geralmente mais dolorosa do que no parto normal.

Riscos para o bebé
Apesar de ser considerada uma cirurgia segura, a cesariana pode acarretar maior risco de complicações para a saúde do bebé.

“A cesariana está associada a um aumento de risco de dificuldade respiratória do recém-nascido (4% versus 2%), sobretudo quando é realizada antes das 38 semanas e previamente ao início do trabalho de parto. Esta dificuldade respiratória é geralmente transitória, mas por vezes implica algum tempo de internamento nos cuidados intensivos neonatais”, esclarece Diogo Ayres de Campos.

Esta cirurgia parece ainda ter um impacto a médio-longo prazo na saúde da criança. “os bebés que nascem por cesariana têm um risco 20-25% superior de desenvolver alergias, obesidade e diabetes na infância”, informa o especialista.

Impacto em gravidezes futuras
O facto de fazer uma cesariana não significa que em futuras gravidezes não possa ter um parto normal. Independentemente do tipo de parto numa gravidez futura, há riscos acrescidos que devem ser tidos em consideração e que podem exigir cuidados adicionais. “A existência de uma cicatriz de cesariana aumenta em 50% a probabilidade de uma nova cesariana e, caso pretenda vir a ter um parto normal, associa-se a um risco de rotura uterina de 0,47%.”, introduz Diogo Ayres de Campos.

“o risco de placenta prévia (placenta que se localiza na parte mais baixa do útero e que causa frequentemente hemorragia) está aumentado em cerca de 3 vezes. O risco de placenta acreta (placenta anormalmente aderente ao útero, necessitando por vezes de extração cirúrgica do útero para controlar a hemorragia após o nascimento) também aumenta, cerca de 7 vezes, após uma cesariana, chegando a afetar mais de metade das grávidas após a quarta cesariana. Ambas as situações acarretam riscos importantes para a saúde da mãe.”, alerta Diogo Ayres de Campos.

Evitar as cesarianas desnecessárias
O mais recente relatório da OCDE Health at a Glance (2018) indica que há atualmente um recurso excessivo ao parto por cesariana em muitas partes do mundo. As organizações de saúde internacionais, como a Organização Mundial de Saúde e a Federação Internacional de Obstetrícia e Ginecologia têm estado alerta e proposto medidas para contrariar esta tendência. Uma baixa taxa de cesarianas é considerada, a nível internacional, um bom indicador de qualidade dos cuidados obstétricos. Na opinião de Diogo Ayres de Campos, também no contexto nacional foram feitos esforços para responder a este problema.

“Em Portugal, foram tomadas várias medidas nos últimos 7-8 anos para reduzir a taxa de cesarianas. Entre estas medidas contam-se a divulgação para a população e para os profissionais de saúde dos riscos associados à cesariana, e a modificação das regras de financiamento hospitalar, de forma a incluir incentivos para reduzir a taxa de cesarianas”, descreve o médico, que é também Presidente-eleito da European Association of Perintal Medicine.

De acordo com Ayres de Campos, o caminho percorrido em Portugal na última década já reflete alguns resultados dessas medidas, tendo-se verificado um decréscimo significativo da taxa de cesarianas, de valores na ordem dos 36% para valores na ordem dos 32%. A experiência portuguesa é usada, a nível internacional, como um exemplo de que é possível contrariar a tendência crescente de cesarianas.

“O maior decréscimo verificou-se nos hospitais públicos, que passaram a ter uma taxa de cesarianas na ordem dos 28%. No entanto, nos hospitais privados a taxa de cesarianas permanece atualmente acima dos 60%, o que não tem qualquer justificação. Por este motivo é urgente alargar as medidas tomadas pelo SNS ao setor privado”, alerta o especialista.

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