Parto sem assistência médica

Escrito por: Professor Doutor Luís Mendes da Graça, Ginecologista-Obstetra

Em Portugal, excluindo as raras situações em que o parto se dá antes da chegada ao hospital, só as gestantes que optam pelo parto domiciliário o terão sem assistência médica.

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O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), no seu documento nº 476, de 2011 1, refere que “o peso relativo entre os riscos e os potenciais benefícios da opção da mulher pelo parto domiciliário programado não estão suficientemente avaliados”. De facto, as evidências relativas ao debate parto hospitalar/parto domiciliário são muito limitadas, visto não haver ensaios aleatorizados 2. Os estudos existentes são apenas observacionais, com amostras muito pequenas e sem grupos de controlo, pelo que toda a informação científica disponível é extremamente frágil 3-5. Adicionalmente, não tem sido possível fundamentar e atribuir com precisão os desfechos adversos associados às transferências efetuadas do domicílio para os hospitais antes e durante o trabalho de parto (TP) 4,6.

Os enquadramentos legais e técnicos relativos ao parto domiciliário são muito variáveis entre países e regiões 7,8, pelo que não podem ser generalizados para outras realidades, nomeadamente a portuguesa, onde não estão definidas nem a estrutura legal a observar, nem o padrão das normas de segurança a aplicar.

Uma meta-análise publicada em 2010 comparou os desfechos dos partos hospitalares com os domiciliários, como se resume na tabela abaixo 9.

 

  Parto domiciliário Parto hospitalar
 Morte neonatal (total) 2,0/1000 0,9/1000
 Morte neonatal (excluindo malformações) 1,5/1000 0,4/1000

 

Este estudo mostra que, quando comparado com o parto hospitalar, o parto no domicílio duplica as mortes dos recém-nascidos (RN) no conjunto da população e, excluindo os RN com malformações, a mortalidade neonatal praticamente quadriplica. Wax JR et al. Am J Obstet Gynecol 2010; 203: 243

Conclui-se assim que, se tivessem nascido num hospital, teriam sido salvos, em média, dois em cada três bebés que morrem por nascer no domicílio. Pelo contrário, nenhuma morte perinatal seria evitada se o parto se tivesse dado em casa.

Desconhecemos em absoluto a realidade nacional visto não haver registos oficiais dos partos domiciliários, só vindo a lume os casos episódicos relatados pela comunicação social. Por alguns documentos avulsos, elaborados por enfermeiros que assistem a partos domiciliários, verificamos ser muito frágil o conhecimento dos riscos atuais ou potenciais que são comunicados às grávidas. E, quando essas situações ocorrem, seja por não serem identificadas ou o serem tardiamente, seja por o transporte para um hospital ser demorado, ocorrerão desastres que poderiam ser evitados se o trabalho de parto tivesse decorrido num hospital, onde estão disponíveis todos os meios de monitorização e de apoio médico imediato.

1. ACOG, Committee Opinion nº 476, 2011; 2. Hendrix M et al. BJOG 2009; 116: 537; 3. Janssen PA et al. CMJA 2002; 166: 315; 4. Johnson KC et al. BMJ 2005; 330: 1416; 5. Lindgren HE et al. Acta Obstet Gynecol Scand 2008; 87: 751; 6. Parratt et al. Aust J Midwifery 2002; 15: 16; 7. DeJonge A et al. BJOG 2009; 116: 1177; 8. Kennare RM et al. Med J Aust 2010; 192: 76.

 

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