Depressão pós-parto paterna

Escrito por: Iolanda Veríssimo
Com os depoimentos e revisão de: Helena Martins, Psicóloga Clínica.

Em entrevista à Nove Meses, a Psicóloga Clínica Helena Martins explica quais os principais sintomas da depressão pós-parto no homem e deixa algumas orientações sobre como reduzir o impacto deste transtorno no bem-estar da família.

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Como descreve a depressão pós-parto paterna?
A depressão pós-parto paterna não é muito diferente da depressão pós-parto materna. É uma perturbação depressiva que surge de forma reativa a um acontecimento de vida. Também não é muito diferente - e muitos teóricos discutem esta questão - da depressão que acontece noutra fase de vida. No fundo, é uma reação, mas que não é tão esperada, por estarmos a falar do nascimento de um filho. Muitas vezes, existe uma culpabilização pelo facto de se considerar que os pais se devem sentir felizes e isso não se verificar.

Quais são os preditores da depressão pós-parto paterna?
A história prévia da depressão - antes ou durante a gravidez -, problemas na relação do casal, mas o grande preditor é a depressão pós-parto na mãe. Muitas vezes, esta depressão acontece por reação à depressão do cônjuge. Daí que muitos estudos apontem para um início mais tardio. Geralmente, consideramos que o período pós-parto se estende até às quatro semanas após o nascimento do bebé. No homem esse período vai de três/seis meses até um ano após o nascimento. Isto porquê? Geralmente, os homens permitem-se sentir depois de a esposa começar a recuperar um pouco do quadro de depressão. No fundo, enquanto a mulher está mais deprimida, ele assume os cuidados, foca-se muito no bebé, nos cuidados à companheira... E depois, quando a mãe recupera um pouco, o pai adquire um bocadinho de espaço e começa a sentir, ele próprio, aquilo que não se tinha permitido antes. 

Quais os sintomas de depressão?
Há poucos estudos que nos indiquem que sintomas são efetivamente exclusivos do homem. Para além de um humor deprimido na maior parte dos dias, e do desinteresse na maioria das atividades, verifica-se muito irritabilidade, uma maior agressividade, desinvestimento na relação de casal, assim como maior número de discussões e de desacordo entre ambos os membros. Há também uma sensação muito típica de desamparo e inadequação, bem como dificuldade em se ligar emocionalmente ao bebé. Quando começa a haver evidência de algum sintoma depressivo, é comum haver uma procura de apoio no cônjuge. E se este não estiver disponível - no caso de a mulher também estar a passar por um quadro depressivo – o pai não recebe este apoio, o que leva a que mais facilmente estes sintomas se desenvolvam ao longo do tempo. 

Quais as consequências possíveis desta situação?
No homem:
No bem-estar do próprio, já sabemos mais ou menos que, como em qualquer quadro depressivo, quanto mais tempo se passa sem intervenção, sem apoio, a depressão tende a agravar-se e isso tem repercussões a nível social, cognitivo, comportamental, afetando as várias dimensões da pessoa.

No casal:
Haverá sempre interferência na qualidade do relacionamento. Como há mais irritabilidade, há menos paciência. Também talvez haja menor capacidade de deixar passar alguma situação menos agradável, gerando mais discussão e tensão entre o casal. Há menos comunicação e menos suporte conjugal. Alguns estudos apontam para uma componente mais agressiva entre ambos os membros.

No bebé:
À semelhança do que acontece com a depressão pós-parto materna, também haverá dificuldades no estabelecimento da relação de vinculação, que hoje em dia sabemos que é fundamental para o desenvolvimento ideal da criança. Afetará naturalmente o seu desenvolvimento social, até porque a figura paterna é muito associada à sociabilização da criança e também à noção de segurança e proteção, visto que tende a ter uma visão menos positiva dos filhos... Ao nível emocional e relacional, naturalmente que terá repercussões. O que acontece é que por vezes estas repercussões não se vão notar logo na primeira infância ou nos primeiros meses de vida. Vão notar-se mais tarde.

E como é que se vão notar?
Há alguns estudos que apontam para poderem estar na origem de algumas perturbações de ansiedade, depressão na própria criança, hiperatividade, embora não haja uma grande evidência em relação a esta última perturbação. Bem como atrasos na aquisição da linguagem e futuras dificuldades nos relacionamentos sociais.

Qual a prevalência da depressão pós-parto no homem?
Em Portugal ainda não há um estudo atual que nos diga qual é a prevalência no nosso país. O último estudo que consultei, feito com a população norte-americana, apontava para uma prevalência entre 2.5 a 24 por cento, o que é significativo. Convém que as pessoas tenham noção de que esta situação pode acontecer a muita gente. É mais comum do que aquilo que se pensa. Porque acredito que está subdiagnosticada pela dificuldade que existe em chegarmos aos pais. É importante que as pessoas tenham atenção à sua saúde mental. Não se pense só na saúde física, porque a saúde mental também é importante, não só para o próprio indivíduo que sofre de depressão, mas para aquele novo ser que depende integralmente do bem-estar dos pais para o seu desenvolvimento ótimo.

O que pode ser feito para prevenir este tipo de depressão?
Atualmente, os pais são inundados com informação sobre como serem bons pais, como lidarem com os primeiros tempos do bebé... E, de facto, começou a haver alguns cursos de preparação para a parentalidade. Efetivamente, temos cada vez mais pais a participarem destes cursos, só que infelizmente são cursos muito focados nas questões mais práticas, ligadas ao bem-estar físico do bebé, a gerir aqueles primeiros tempos, e não tanto às questões mais emocionais, o que faz com que também não haja um sentido de prevenção do quadro de depressão. Depois, os profissionais de saúde dificilmente têm acesso aos homens. Infelizmente, muito pela questão da licença de parentalidade. A licença feminina é maior, dura mais tempo, e normalmente o que acontece é que é a mãe a acompanhar a criança às consultas com o pediatra, às consultas de enfermagem. E portanto está mais presente e exposta. O pai não está tão presente nestes momentos, então escapa um bocadinho a este filtro.

E de que forma se pode contornar essa situação?
A partir do momento em que uma mãe é sinalizada por depressão pós-parto, o companheiro também deveria ser visto. É importante perceber se este também já evidencia alguma sintomatologia, dada a existência de uma correlação entre a depressão pós-parto paterna e a materna. Também sensibilizar os profissionais para esta questão. Não só para a depressão pós-parto paterna, mas também para a materna. Promover uma maior sensibilização, eventualmente com formação específica nesta área para os profissionais de saúde, poderia ser uma mais-valia. Contudo, a grande dificuldade é a presença do pai nas consultas. Não estando, torna-se mais difícil fazer o diagnóstico.

Quais os tratamentos atualmente disponíveis?
Neste momento não está desenvolvida nenhuma intervenção específica. Em termos farmacológicos, faz-se o mesmo tipo de intervenção que para a depressão comum. Em termos psicoterapêuticos, não está pensado nada em particular, porque o quadro ainda não está muito estudado, portanto, ainda não conhecemos suficientemente as suas especificidades para delinear uma intervenção. Em psicoterapia é realizada uma intervenção dirigida à sintomatologia depressiva mediante as características de cada pessoa. A verdade é que, segundo o que a evidência nos diz, a intervenção ajustada às condições individuais da pessoa será sempre bastante eficaz quando combinada a psicoterapia com farmacologia, caso seja necessário.

Como é que a mulher pode ajudar o companheiro a superar uma situação de depressão pós-parto?
Pode procurar tentar ser compreensiva com o momento de vida pelo qual o pai está a passar. Tentar apoiá-lo. A sensação de falta de suporte social e de falta de apoio do cônjuge é muito forte, e faz parte da sintomatologia. A verdade é que o nascimento de um filho traz uma transição grande e obriga a mudanças familiares drásticas. O casal passa a ter uma criança que depende 24 horas por dia dele, e tudo isto gera alterações na dinâmica familiar. Devem tentar suavizar esta dinâmica, perceber um bocadinho o outro lado e refletir sobre as mudanças que estão a acontecer. Porque, por vezes, o problema está nas expetativas. Há uma expetativa em relação a como vai ser a vida após o nascimento do bebé e depois eventualmente essa expetativa não corresponde à realidade. Tentar fazer este ajuste é importante. Se eventualmente esta abordagem falhar - o que pode acontecer - procurar a ajuda de um profissional de saúde será sempre um bom caminho. 

Que conselhos deixa aos pais para que consigam salvaguardar a sua saúde mental no período pós-parto?
Durante a gravidez, será importante procurar planear o que vai acontecer após o parto. Tentar perceber de que forma podem reduzir o impacto daquela mudança na dinâmica familiar. Tentar prever se vão precisar de suporte de um outro familiar ou amigo, e recorrer a ele quando necessário. É muito desgastante. A privação de sono dos primeiros tempos também tem o seu contributo, por isso, se possível, o casal deve aproveitar ao máximo para descansar antes do nascimento do bebé, reforçar a relação de casal, apostando em momentos de lazer. Se possível - e nem sempre é possível, porque há casais que não têm meios de apoio muito próximos – devem recorrer à ajuda de mais alguém. É um pouco aquilo que se faz em termos de prevenção da psicopatologia em geral. Tem muito a ver com esta gestão: um equilíbrio entre o que tem de ser feito e algum descanso. Momentos de lazer e também atenção à autoestima.

Como é que o pai pode pedir ajuda?
O ideal será, através do médico de família, agendar uma consulta com um especialista na área da Psicologia ou na área da Psiquiatria.

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