Consulta pré-concecional

Escrito por: Iolanda Veríssimo
Com os depoimentos e revisão de: Dra. Ana Chung, Ginecologista-Obstetra.

Saiba para que servem os cuidados pré-concecionais e conheça os passos mais importantes para preparar a gravidez.

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A consulta pré-concecional tem como objetivo avaliar o estado de saúde da futura mãe e tomar as medidas apropriadas para preparar a gravidez. Embora os cuidados pré-concecionais variem de acordo com as especificidades de cada mulher, são importantes para todas as mães.

Para o futuro bebé, estes cuidados são como um primeiro presente, pois significam que os pais estão a seguir as precauções adequadas para estarem mais saudáveis na altura da conceção, e lhe proporcionarem um começo de vida também ele com saúde.  

A consulta pré-concecional é ainda uma oportunidade para expor dúvidas e receios sobre questões de saúde que preocupem o casal, sejam eles relacionados com a nutrição, problemas de saúde congénitos e hereditários, ou mesmo sobre os aspetos psicológicos, familiares e financeiros relacionados com a preparação da gravidez.

De acordo com a obstetra Ana Chung, esta é uma das únicas ocasiões que muitas mulheres têm para fazer uma análise mais completa ao seu estado de saúde. «É muito importante para qualquer mulher, independentemente de ela ser saudável ou não», sublinha.

É um momento em que a futura mãe pode conversar com o seu médico sobre o seu estilo de vida, rotinas alimentares, hábitos de descanso, exercício físico, stresse e eventuais problemas de saúde que já a acompanhem. Além disso, será um bom ponto de partida para se adaptar à nova fase em que tenta engravidar.

O médico poderá pedir-lhe para registar o calendário das menstruações, falar dos hábitos de contraceção, bem como esclarecê-la sobre o seu período fértil ou o tempo que poderá ser necessário para engravidar. Muito importante ainda será poder preparar-se para a conceção do ponto de vista físico, sobretudo nutricional. «Há determinados passos que a mulher deve tomar e que incluem o início de vitaminas antes da conceção, nomeadamente de ácido fólico e de iodo, para a prevenção de algumas malformações congénitas e para a melhoria do desenvolvimento neurológico e cognitivo do bebé», explica a especialista.

De acordo com Ana Chung, muitas mulheres sabem da importância de fazer exames antes de engravidar, mas estão pouco cientes da necessidade de se prepararem do ponto de vista nutricional, com a toma de vitaminas e suplementos antes da gravidez.

«Geralmente, quando dou consultas a mulheres em idade fértil, pergunto se há planos para engravidar e digo que, quando houver esses planos, é importante fazer uma consulta pré-concecional. Se nós conseguirmos incutir às mulheres esta preocupação de preparar a gravidez, obviamente que vamos conseguir ter uma população muito mais saudável e ter uma menor probabilidade de problemas, não só durante a gravidez, mas durante o parto», sublinha.

Preparar a gravidez no ponto mais saudável

As primeiras semanas de gravidez são de extrema relevância. O período em que o feto está mais vulnerável a problemas de desenvolvimento ocorre entre os 17 e os 56 dias após a fecundação, altura em que se começam a formar os órgãos, mas quando muitas mulheres ainda não sabem que estão grávidas.

Por isso, e porque quase 50 por cento das gravidezes não são planeadas, analisar o estado de saúde do casal antes da conceção permitirá detetar e prevenir muitos problemas que podem pôr em causa a evolução da gravidez e a saúde da mãe e do bebé. «A pré-conceção é uma janela muito importante para fazermos determinados diagnósticos. É uma oportunidade para o médico de família fazer um rastreio de uma série de patologias naquele casal», acentua Ana Chung, reforçando que é nesta “janela” que o médico obtém informação para avaliar os riscos de anomalias reprodutivas no casal e propõe medidas para minimizar ou eliminar esses riscos. No caso de já não ser a primeira gravidez, esta é também uma oportunidade para investigar eventuais problemas em gravidezes anteriores.

Análises e exames

A consulta pré-concecional pode ser feita pelo médico de Medicina Geral e Familiar ou pelo médico Ginecologista-Obstetra. No entanto, não pode ser substituída por uma consulta geral de rotina, uma vez que aborda dimensões específicas da pré-conceção.

Com base nas diretivas da Direção-Geral da Saúde (DGS), o médico normalmente prescreve análises básicas do estado de saúde da mulher, como o hemograma, a análise da função renal e a análise à urina, bem como análises específicas, como as serologias, que servem para avaliar o estado da mulher em relação a doenças como a rubéola, a toxoplasmose, a sífilis, a infeção por VIH ou a hepatite B. Para o rastreio do cancro do colo do útero, a citologia cérvico-vaginal (conhecida como Papanicolau) também deve estar em dia, e caso a mulher não tenha nenhuma ecografia recente, será feita uma para perceber se está tudo bem com o útero e os ovários. Outro dos exames relevantes, e que engloba o casal, é o rastreio das hemoglobinopatias.

De acordo com Ana Chung, não é essencial que o homem acompanhe a mulher na consulta pré-concecional, mas  a mulher deverá ser conhecedora do historial pessoal e familiar do companheiro e este deverá realizar os exames prescritos pelo médico nesta ocasião.

«Convém não esquecer a parte masculina da equação, porque os homens, apesar de não carregarem a criança, têm o seu contributo, e é importante confirmar analiticamente se está tudo bem com o parceiro, sobretudo se for uma primeira gravidez», reforça.

O que levar

No caso de ter muitas questões para colocar ao médico, poderá ser útil levar uma pequena lista com os tópicos do que pretende perguntar, para não se esquecer de nada. Deve também fazer-se acompanhar do boletim de vacinas, para que o médico possa verificar se a vacinação está em dia, nomeadamente a vacina contra o tétano, que na idade adulta deve ser feita de dez em dez anos.

Se for possível, leve ainda o boletim de exames, para evitar que se repitam análises que tenham sido realizadas há pouco tempo. Se já tiver filhos e for a um novo médico, será útil apresentar os boletins de gravidezes anteriores, assim como informação sobre o historial familiar. «É importante que a mulher vá já munida de informação, não só pessoal, como do ponto de vista familiar. Porque é uma coisa que o médico pergunta: se há patologia hereditária importante».

Segundo Ana Chung, este tipo de informação é imprescindível, uma vez que, havendo patologias na família - como doenças cromossómicas transmitidas de pais para filhos – estas podem ser investigadas ainda antes ou durante a gravidez, de forma a diagnosticar se aquele bebé é portador da doença.

Problemas de saúde e ajustes na medicação

De acordo com Ana Chung, a consulta pré-concecional reveste-se de especial importância para as mulheres que já têm uma patologia ou que tiveram problemas em gravidezes anteriores. «É importante que, se uma mulher tem história de abortos de repetição anterior, seja avaliada por um especialista na área – que normalmente é um obstetra, não um médico de família – para fazer uma série de exames médicos que nos permitam perceber exatamente a origem do problema», sublinha.

Da mesma maneira, no contexto de condições médicas anteriores como diabetes, asma, depressão, epilepsia, lúpus, ou outras, será imprescindível compreender se a doença está controlada e avaliar o impacto da medicação. «Há patologias, como a epilepsia, hipertensão, as doenças depressivas, etc., que precisam de reajustes na medicação antes de a mulher engravidar. O que se pretende é que, durante a gravidez, a mulher seja medicada com o mínimo número de fármacos e na menor dose possível», explica. 

O mais importante é a doença estar o mais controlada possível, se necessário com medicação. Há muitos fármacos compatíveis com a gravidez. Pode ser melhor para o bebé que a mãe tome um medicamento do que não tome. É importante que a futura mãe informe o médico especialista que a segue que pretende engravidar, para que este possa fazer os ajustes recomendados no tratamento.

Suplementação nutricional na pré-conceção

Na consulta pré-concecional, o médico prescreve a toma de suplementos nutricionais conforme as orientações da Direção-Geral da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. No caso português, os cuidados pré-concecionais incluem um suplemento diário de 400 µg de ácido fólico, a ser iniciado dois meses antes de engravidar, e mantido ao longo de toda a gravidez, com o objetivo de prevenir malformações no cérebro do bebé. Relativamente ao iodo, a DGS recomenda um suplemento diário de 150 a 250 µg/dia desde o período pré-concecional, durante toda a gravidez e enquanto durar o aleitamento materno exclusivo.

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