Como assim, tenho diabetes gestacional?

Escrito por: Dr.ª Mariana Mouraz, especialista em Ginecologia e Obstetrícia do Centro de Saúde Militar de Coimbra.

“Eu até sou magrinha!” “Nem como muitos doces!” “Nem tenho ninguém com diabetes na família!”. Se lhe diagnosticaram diabetes na gravidez vai querer ler este artigo. É um pouco extenso, pode optar por ler apenas as respostas que lhe interessam. Mas devia lê-lo todo 😊

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Tenha calma, não é o fim do mundo, bem informada e acompanhada, tem tudo para correr bem!

O que é a diabetes gestacional?
A diabetes mellitus (também chamada de "diabetes") é uma doença caracterizada pelo excesso de glicose (açúcar) no sangue. Algumas mulheres desenvolvem diabetes pela primeira vez durante a gravidez – isso chama-se diabetes gestacional (DG). As mulheres com DG precisam de cuidados especiais durante e após a gravidez.

O que é que causa a diabetes?
O nosso corpo produz uma hormona chamada insulina, que mantém os níveis de açúcar no sangue (glicémia) normais. Durante a gravidez, o organismo da grávida produz mais insulina para manter a glicémia normal, mas em algumas mulheres, existe uma “resistência” a essa insulina e os níveis de açúcar no sangue aumentam. Isso leva à diabetes gestacional.

Se eu desenvolver diabetes gestacional, vou ficar com diabetes para sempre?
A DG desaparece após o parto. No entanto, as mulheres que tiveram DG têm um maior risco de desenvolver diabetes mais tarde na vida. Em algumas grávidas a quem foi diagnosticada DG podiam já ter uma forma ligeira de diabetes antes da gravidez, sem o saberem. Para essas mulheres, a diabetes não desaparece após o parto e pode permanecer para a vida toda.

Quem está em risco de ter diabetes gestacional?
São vários os fatores de risco associados à DG. Também pode ocorrer em mulheres sem fatores de risco, mas é mais provável em mulheres com:
- Idade > 35 anos;
- Excesso de peso ou obesas;
- Fisicamente inativas;
- DG ou bebés muito pesados (> 4Kg) na gravidez anterior;
- Hipertensão arterial ou doença cardiovascular;
- Síndrome dos ovários poliquísticos.

Como é que a DG pode afetar a grávida?
Quando uma mulher tem DG, o seu corpo passa mais açúcar para o feto do que o necessário. Com muito açúcar, o feto pode ganhar muito peso. Um feto grande (>4kg) pode levar a complicações para a grávida, incluindo maior risco de cesariana e parto instrumentado (ventosa ou fórceps), lacerações do canal de parto e infeções.
Quando uma mulher tem DG, tem maior probabilidade de ter tensão alta e pré-eclâmpsia.

Como é que a DG pode afetar o bebé?
Os bebés nascidos de mulheres com DG têm maior probabilidade de terem problemas respiratórios e icterícia. Esses bebés podem ter uma baixa glicémia após nascer.
Os bebés grandes são mais propensos a: sofrer traumatismo no nascimento, incluindo lesões nos ombros durante o parto vaginal, e ficar internados em Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais.

Serei testada para a DG?
Todas as grávidas devem ser rastreadas para a DG. No primeiro trimestre, é avaliada a glicémia em jejum. Se este valor estiver normal, será feita nova avaliação entre as 24 e as 28 semanas de gravidez – Prova de Tolerância à Glicose (não vale a pena fazer antes porque não é tão válido).

Foi-me diagnosticada DG e agora?
Vai ter mais consultas pré-natais de forma a poder monitorizar a sua saúde e a do seu feto. Irá precisar de controlar a glicémia e fazer algumas coisas para a manter dentro dos níveis exigidos. Fazer isso vai diminuir os riscos para si e para o seu bebé. Para muitas grávidas, uma dieta saudável e exercício físico regulares controlam o açúcar no sangue. Outras, mesmo que já tenham feito mudanças na dieta e exercício, podem precisar de medicamentos para ajudar a atingir os níveis normais.

Como se faz a avaliação da glicémia?
Ser-lhe-à explicado como usar um medidor de glicose para testar os seus níveis de açúcar. Este dispositivo mede o açúcar a partir de uma pequena gota de sangue. Mantenha um registo dos valores e leve-o consigo a cada consulta pré-natal, pois irá ajudar o seu médico a melhorar os cuidados. Devem ser realizadas quatro avaliações diárias da glicémia (em jejum e 1 ou 2 horas após cada refeição principal).

Devo mudar a minha dieta se tiver DG?
Quando as grávidas têm DG, fazer escolhas alimentares saudáveis é ainda mais importante para evitar que os níveis de açúcar fiquem muito altos. Na grande maioria dos hospitais, as grávidas têm um acompanhamento pelo nutricionista. Geralmente, são recomendadas três refeições e dois a três lanches por dia e uma ceia. Comer regularmente ajuda a evitar quedas e picos no seu nível de glicémia. O aumento de peso durante a gravidez deve ser bem controlado. Para uma mulher com DG, excesso de peso ou ganho excessivo durante a gravidez pode dificultar a manutenção dos níveis de açúcar.

O exercício físico regular poderá ajudar a controlar a DG?
O exercício ajuda a manter os níveis de açúcar na faixa normal. Em geral, recomenda-se 30 minutos de exercício aeróbico, de intensidade moderada, pelo menos 5 dias por semana (ou no mínimo 150 minutos por semana). Caminhar é um ótimo exercício para todas as grávidas. Além do exercício aeróbico semanal, é uma boa ideia adicionar uma caminhada por 10 a 15 minutos após cada refeição. Isso pode levar a um melhor controle do açúcar.

Preciso tomar medicação para controlar a minha DG?
Para algumas mulheres, podem ser necessários medicamentos quando a dieta e o exercício são insuficientes para manter as glicémias nos valores normais. A insulina é um dos medicamentos recomendados durante a gravidez. A sua administração faz-se com uma injeção (agulha muito fininha) por baixo da pele e deve ser feita pela própria grávida. A insulina não atravessa a placenta, por isso não afeta o feto. Existem outros medicamentos, tomados por via oral, que podem ser utilizados. É importante que mantenha os registos para avaliar se a medicação está a ser ou não eficaz. Esta pode ser alterada até ao final da gravidez.

A DG pode afetar o parto?
A maioria das grávidas com DG controlada pode completar uma gravidez a termo. No entanto, se houver complicações com a sua saúde ou a do seu feto, ou a diabetes não estiver controlada, o trabalho de parto pode ser induzido antes da data prevista. Embora a maioria possa ter um parto vaginal, a probabilidade de ter uma cesariana é maior do que as grávidas sem DG.

Se eu tiver DG, há algum teste que deva fazer após a gravidez?
Deve fazer um exame de sangue entre as 6 e as 12 semanas após o parto. Se o seu nível de açúcar estiver normal, deverá fazer um teste à diabetes a cada 3 anos.

Quais são as preocupações com a saúde das mulheres que tiveram DG?
A DG aumenta o risco de desenvolver diabetes na sua próxima gravidez e no futuro. Entre 15% a 70% das mulheres com DG desenvolverão diabetes mais tarde na vida. Mulheres que tiveram tensão alta na gravidez, ou pré-eclâmpsia, também correm maior risco de doenças cardiovasculares no futuro. É importante que informe o seu médico assistente para poder ter um acompanhamento mais próximo. A promoção de um estilo de vida saudável (dieta adequada, manutenção de peso normal, evicção tabágica e exercício físico) parece reduzir a incidência de complicações tardias.

Será que é necessário ter alguma atenção com a saúde das crianças?
Os filhos de mulheres que tiveram DG têm maior risco de excesso de peso ou obesidade durante a infância. Essas crianças também têm um risco maior de desenvolver diabetes. Informe o médico do seu filho que teve DG para uma monitorização dos níveis de açúcar durante a infância.

Adaptado de https://www.acog.org/patient-resources/faqs/pregnancy/gestational-diabetes

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