Desejos na gravidez

Escrito por: Ana Margarida Marques
Com os depoimentos e revisão de: Dra. Maria Helena Machado, Ginecologista-Obstetra

Os desejos por certos alimentos durante a gravidez são pouco evidentes para a comunidade científica. Saiba porquê.

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“Os desejos na gravidez são mais frequentes na mulher moderna do que em gerações anteriores”, refere a médica obstetra Maria Helena Machado, continuando: “De acordo com um estudo de Fiona Ford da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, uma das razões apontadas é o facto de hoje haver uma maior disponibilidade dos géneros alimentícios, que torna mais fácil satisfazer esses mesmos desejos (já não há alimentos sazonais, por exemplo).”

No estudo britânico realizado com 2231 grávidas concluiu-se que o desejo do chocolate foi o mais mencionado, seguido dos desejos de gelado, doces, comidas picantes, pickles, fruta tropical, caril, donuts, levedura de cerveja, manteiga de amendoim, batatas e frutos secos. A combinação de alimentos mais referida foi a de pickles e manteiga de amendoim, tendo-se registado outras combinações como levedura de cerveja e gelado, atum e banana, ovos estrelados e molho de menta. O estudo regista que a maioria dos desejos na gravidez ocorre à tarde (40%) ou à noite (38%); 8% das mulheres come snacks à meia-noite, às escondidas.

De acordo com outros dados estatísticos consultados, os desejos variam muito de grávida para grávida e na mesma grávida de semana para semana. Cerca de 40% das gestantes têm desejos de doces, 33% de salgados, 17% de comida picante e 10% de comida azeda.

Distúrbios alimentares

Há relatos de mulheres que afirmam sentir apetite por substâncias pouco comuns. “Designa-se por 'pica' o distúrbio alimentar em que existe uma compulsão de ingerir substâncias prejudiciais ou até tóxicas como o gesso, pontas de cigarro, terra, detergentes e outros”, refere a obstetra, desvio que “parece estar mais relacionado com o cheiro e a textura e não tanto com o sabor”.

A este propósito, no mesmo estudo britânico verificou-se que 31% dos desejos não foi por alimentos. As substâncias mais frequentemente mencionadas foram: gelo (22%), carvão (17%), pasta dentífrica (9%), esponjas (8%), terra (7%), giz (6%), detergente da roupa (5%), fósforos (3%) e borracha (1%).

“Não parece ser verdade que tais desejos ajudem a colmatar carências nutricionais, uma vez que o corpo não consegue absorver nutrientes de substâncias do tipo do carvão ou da terra”, refere a médica obstetra. De entre todos os produtos referidos, o gelo parece ser o mais indicado para satisfazer o desejo de textura de uma forma não tóxica (em vez de mascar cabeças de fósforos, por exemplo).

As causas dos desejos

Não é clara a razão dos desejos (“craving”, em inglês, que significa vontade incontrolável de ingerir algo). Uma das teorias aponta para que possam ser de causa hormonal, mas nada está comprovado. “Uma vez que é na gravidez que estes desejos mais acontecem, pensa-se que poderão estar implicadas as hormonas como o estrogénio e progesterona”, aponta a médica obstetra, “até porque os mesmos desejos, e aversões, também ocorrem, embora com menor intensidade, ao longo do ciclo menstrual”.

Por outro lado, a ingestão de alimentos que “consolam”, como o chocolate, as batatas fritas, os gelados e outros, parece diminuir a produção de hormonas de stress, contribuindo para o bem-estar da grávida.

Outras correntes advogam que os desejos possam significar que a grávida procura alimentos que contêm nutrientes que estão em carência no organismo. “A apetência pelo chocolate significaria falta de magnésio ou a vontade de ingerir carne vermelha falta de proteínas”, refere. “Ao contrário, a aversão por algum alimento poderia ser no sentido de proteger o organismo de substâncias biologicamente nefastas, como por exemplo o álcool ou a cafeína.” O facto de muitas vezes a grávida desejar alimentos de muito baixo valor nutricional ou até prejudiciais para a saúde não vem apoiar estas possíveis explicações.

Segundo a obstetra Maria Helena Machado, “os desejos não devem constituir motivo de preocupação se não forem prejudiciais. De uma forma geral, os desejos não são excessivos e a dieta compensa-os. Moderação e bom senso são as palavras-chave na abordagem destes comportamentos. Em caso de exageros que possam levar, por exemplo, a um aumento ponderal significativo, a gestante deve ser orientada pelo seu obstetra em relação à sua compulsão. Um exemplo de aconselhamento que pode ser útil é aconselhá-la a mascar pastilha elástica sem açúcar, em vez de ingerir alimentos calóricos em excesso. E, claro está, deve ser dissuadida de ingerir tóxicos para o organismo, por exemplo carvão ou detergente.”

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