Carência de ferro na gravidez

Escrito por: Iolanda Veríssimo
Com os depoimentos e revisão de: Dra. Joana Raquel Silva, Médica Ginecologista-Obstetra no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho.

Uma alimentação saudável é fundamental para fornecer ao organismo a dose diária de ferro de que este necessita. Saiba que outros cuidados deve ter para prevenir a carência de ferro no período de gestação.

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Durante a gravidez, as carências nutricionais da mulher aumentam, para dar resposta ao crescimento e desenvolvimento do feto e manter o seu próprio bem-estar.

Como destaca Joana Raquel Silva, médica ginecologista-obstetra no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, a preparação de uma gravidez saudável e os cuidados para um bom equilíbrio nutricional começam logo no período preconcecional, através do controlo de possíveis doenças prévias nos pais, e com a adoção de um estilo de vida saudável.

«O equilíbrio nutricional, com a realização de seis a sete refeições diárias, a ingestão hídrica abundante, a inclusão de hábitos alimentares que permitam o fornecimento completo de nutrientes recomendados (de acordo com a pirâmide dos alimentos) e a prática de exercício físico vão permitir o controlo do peso, aumentando, desde logo, a probabilidade de engravidar», sugere a especialista.

Estes cuidados devem estender-se a toda a gravidez e continuar no período pós-parto. Na gravidez, cumprir um plano alimentar saudável diminuirá o risco de complicações obstétricas e o aparecimento de doenças futuras no bebé.

Na recuperação no pós-parto, os bons hábitos de alimentação continuam essenciais, sobretudo se a mãe estiver a amamentar - o que aumenta substancialmente o dispêndio de energia – de forma a dar ao bebé todos os nutrientes de que precisa.

A importância do ferro

Segundo Joana Raquel Silva, a gravidez leva a que haja uma necessidade diária acrescida de ferro. O ferro é um micronutriente mineral com um papel essencial na formação da hemoglobina, cuja função é transportar o oxigénio pelos tecidos do corpo.

Segundo a médica, este micronutriente é usado para o «desenvolvimento e crescimento adequados da unidade que contempla feto e placenta», e para suportar o aumento da quantidade de sangue da mãe, designado por massa eritrocitária.

A gravidez suscita por isso a possibilidade de a mãe vir a ter carência de ferro. Como explica Joana Raquel Silva, numa primeira fase, antes de se atingir uma situação de anemia, esgotam-se as reservas de ferro do organismo materno. No entanto, quando a forma armazenada de ferro chega ao fim, a grávida fica mais vulnerável ao aparecimento de anemia, se a situação de carência de ferro se mantiver.

«A maioria das mulheres não tem capacidade de, apenas pela mobilização das reservas de ferro do seu organismo, suportar este incremento nas suas necessidades», esclarece a especialista.

«A prevenção e tratamento do défice de ferro passa por intervenções relativas a correções nutricionais, com o aumento do aporte de alimentos ricos em ferro e pela suplementação diária com ferro oral, isoladamente ou fazendo parte de multivitamínicos pré-natais. Existem mesmo algumas sociedades científicas que recomendam a suplementação com ferro oral de forma universal e a todas as grávidas», completa.

Alimentos ricos em ferro

A primeira abordagem face à carência de ferro passa por enriquecer a dieta em alimentos básicos ricos em ferro, que permitam responder às necessidades diárias acrescidas, combinando-se este cuidado com uma vigilância adequada.

«Os alimentos que contêm ferro na sua forma mais biodisponível são a carne e o peixe. Alimentos também ricos em ferro são os espinafres, brócolos, lentilhas, ovos, etc. Por outro lado, a absorção de ferro também está incrementada pela ingestão simultânea de alimentos ricos em vitamina C», descreve.

Na prática, acrescenta Joana Raquel Silva, «a grávida deve seguir normas de uma alimentação saudável, de forma a assegurar, não só a dose diária de ferro, mas também dos outros nutrientes, de forma adequada e equilibrada».

Valores de referência

A Organização Mundial de Saúde (OMS) indica que os valores de referência de hemoglobina na gravidez são 11g/dL.

«Grávidas com valores inferiores a este limite devem ser consideradas anémicas e ser alvo de uma avaliação mais aprofundada, no sentido de esclarecer qual a origem da anemia. Na maioria dos casos, a anemia relaciona-se com o défice nutricional de ferro, que leva a uma redução das suas reservas», explica.

O que é a anemia?

A anemia consiste na redução do número de glóbulos vermelhos no sangue, podendo, na prática, ser definida pela redução do valor da concentração de hemoglobina, que é a molécula que transporta o oxigénio, relativamente ao que é expectável para a idade e sexo.

Sintomas de anemia

Quando as reservas de ferro no organismo não são repostas, a carência de ferro pode conduzir ao aparecimento de anemia. Os sinais e sintomas desta doença variam conforme o seu grau e a forma como evolui, que pode ser rápida ou gradual. Os sintomas estão ainda dependentes das necessidades de oxigénio que a grávida apresenta no momento.

Por trás dos sintomas, podem estar a carência de nutrientes como vitamina B12, ácido fólico e ferro, devido a uma dieta inadequada. Apesar de ser possível existir uma carência de ferro sem se atingir uma situação de anemia, sintomas como o cansaço e a diminuição da tolerância à atividade física são, muitas vezes, comuns às duas situações.

«A anemia manifesta-se, essencialmente, por quadros de cansaço fácil, dores de cabeça, irritabilidade, fadiga e intolerância ao esforço físico/atividade física habitualmente tolerados pela pessoa», explica Joana Raquel Silva.

Complicações da anemia

É muito importante que a grávida tenha o cuidado de manter uma alimentação saudável antes, durante, e após a gravidez, e que siga as recomendações médicas no que respeita à suplementação nutricional. Como elucida Joana Raquel Silva, a anemia decorrente de uma carência de ferro pode desencadear complicações graves tanto para a mãe como para o feto.

«A anemia na grávida pode acarretar complicações como insuficiência cardíaca e problemas cardiovasculares, e aumento do risco de hemorragia e anemia pós-parto. De igual forma, podem ocorrer complicações obstétricas, como parto pré-termo e anomalias na dinâmica do trabalho de parto e fetais, como restrição de crescimento fetal. Casos de anemia grave podem ter repercussões no futuro desenvolvimento do bebé, nomeadamente no desenvolvimento cognitivo», refere a especialista.

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