Consulta pós-parto

Escrito por: Dra. Marcela Forjaz, Ginecologista Obstetra Edição: Iolanda Veríssimo

A consulta pós-parto concentra-se na mãe, olhando para os vários aspetos que importam na recuperação física e emocional depois da gravidez e do parto. 

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Volvidas quatro a seis semanas sobre o parto, a um ritmo que a fez esquecer de si, este é o momento de voltar a olhar-se, a escutar-se, perceber como se sente, a reorganizar as suas rotinas e isso passará por ir à sua consulta de “revisão do parto”. O bebé até pode acompanhá-la, ou ficar entregue ao pai ou a um familiar que se encarregue, se necessário, de dar-lhe o biberão do seu leite ou de leite artificial... Mas este é o seu momento! A atenção do médico é dirigida para si, para a sua recuperação física e emocional após o parto, e deve aproveitar para ser honestamente autocrítica e fazer nesta altura um «ponto da situação» sobre tudo o que pode preocupá-la.

Sente-se bem? Anda feliz? Descansa o suficiente? Está a amamentar integralmente ou o bebé toma também leite adaptado? Se for este o caso, tem com quem dividir a tarefa de alimentar o bebé? O peito está a responder bem ao ritmo da amamentação, sem “encaroçar”, sem fissuras no mamilo?

Estas são algumas das questões levantadas na consulta de pós-parto e deve falar francamente com o seu médico sobre estes e outros aspetos. O período pós-parto é muito exigente em termos de esforço físico e emocional e há uma série de adaptações a fazer a este novo estado de parentalidade.

Dormir mal, que pode parecer algo pouco relevante porque «todas as mães devem estar preparadas para isso», pode tornar-se um problema premente do dia-a-dia e da sua vida de relação...O cansaço de noites mal dormidas pode deixá-la pouco tolerante quer para os outros quer para o próprio bebé e da gestão desse cansaço pode depender uma amamentação bem sucedida.

As oscilações hormonais do pós-parto são algo já bem conhecido e, associadas à privação do sono, são causa frequente de labilidade do humor da qual se apercebe e que acaba por lhe causar alguns sentimentos de culpa e ainda de ansiedade e alterações da memória, o que a leva a duvidar que o retorno ao seu trabalho, quando ocorrer, seja algo pacífico...Sente-se tão diferente que chega a questionar a sua competência profissional! ...Ou, por outro lado, começa a estar tão saturada por ver o seu dia-a-dia limitado a fraldas e mamadas, que se acha má mãe por desejar recuperar a sua vida normal! Quem disse que é tudo fácil depois de um bebé nascer não devia estar no seu juízo perfeito! Deve, mesmo que ache tudo isto natural porque encontra na internet e nos livros, conversar na consulta sobre estes aspetos para que o médico avalie se é algo que esteja a ser mais profundamente perturbador (e por isso necessitando de apoio) do que o esperado.

Diagnosticar possíveis sequelas da gravidez

A consulta de pós-parto é o momento ideal para avaliar o que acha que são ainda sequelas da gravidez e do parto. Um exemplo é o facto de com frequência nesta fase existir ainda algum grau de incontinência urinária e não deve esconder esse problema. É uma situação que não deve ser minimizada e mesmo que explicados os mecanismos que a terão causado (quer hormonais e que se continuam nesta fase, quer “mecânicos” pelo aumento de pressão intra-abdominal e peso direto continuado sobre a bexiga e músculos do pavimento pélvico) deve ser feito um diagnóstico correto para que se tomem também as medidas terapêuticas mais adequadas.

Regressar à vida normal

Outra questão comum prende-se com o retomar da atividade sexual. É algo comum existir algum receio em dar esse passo, quer porque se teme a dor, numa puérpera de parto por via vaginal, quer porque simplesmente se tem medo de que algo de mal possa acontecer numa mãe de cesariana. Para além deste fator, deve ser referida também a necessidade de voltar a viver a vida de relação em pleno, e por esse motivo contrariar a tendência natural de adiar o momento porque não se tem disponibilidade nem física nem emocional. O casal olha-se como a “mãe” e o “pai” do bebé e precisa de ser recordado que antes do aparecimento deste eram mulher e homem... Não podem deixar que o cansaço causado pela atenção que o bebé lhes consome seja um fator de distanciamento. Do ponto de vista físico, feita a observação clínica, muitas vezes esta consulta representa também a validação da “aptidão” para retomar a vida normal, incluindo o exercício físico e a atividade sexual.

Planeamento familiar

A propósito desta, deverá ainda ser abordada a necessidade de contraceção e qual a melhor opção tendo em conta se está ou não a amamentar e a sua história clínica. Conforme também o planeamento familiar considerando o intervalo desejado entre filhos, poderá ser proposta uma pílula contracetiva (eventualmente a compatível com a amamentação) ou outro método como o dispositivo intrauterino; obviamente o preservativo será também uma opção, tendo sempre como objetivo que o casal se sinta confortável e com os seus objetivos acautelados.

A vivência da amamentação

Finalmente, deve ser revista a forma como está a decorrer a amamentação e, mesmo que fale também com o pediatra sobre o assunto, aqui a abordagem não será só do ponto de vista do bebé, se ganha ou não peso, mas sob a visão materna, a que a preocupa: o que fazer quando introduzir refeições diferentes ao bebé, extrair ou não leite, fazê-lo com bomba ou manualmente e deixar previsto o que acontecerá quando reduzir drasticamente o número de mamadas ou mesmo suspender a amamentação.

Resolver problemas

O ideal será fazer-se acompanhar de uma pequena lista com os assuntos que deseja que sejam falados na consulta, para que não haja falhas. Possivelmente fará ainda a sua citologia se esta não estiver em dia e tão depressa não necessitará de uma consulta, pelo que é bom que saia com tudo esclarecido, seja como lidar com a secura vaginal, por exemplo, seja como resolver a queda de cabelo!

É nesta consulta que deve colher já toda a informação para que saia segura, sentindo-se munida de tudo o que precisa para tomar o comando das coisas: o retorno à atividade física, a sexualidade, a contraceção, como resolver os pequenos problemas que a atormentam... Quando sair da consulta deve sentir que os seus problemas estão resolvidos ou que sabe como resolvê-los e que, estando tudo bem, está a virar a página desta última fase e que, ultrapassadas todas essas adaptações está de novo a regressar à normalidade... Embora com mais uma criatura (exigente!) lá em casa...

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