Porque temos filhos?

Escrito por: Mário Cordeiro, Pediatra.

Homens e mulheres começam a pensar em filhos ao mesmo tempo, mas não há memória desse momento, dado que tudo acontece na idade da qual não nos recordamos de nada. É verdade. Tudo começa aos 18… meses de idade. Meses, sim!

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Na consulta pré-natal, pergunto aos casais quando é que, cada um em particular (e não, portanto, «em equipa») crê ter começado a fantasiar filhos. Ouço as mais variadas respostas, mas é raro quem acerta. O mais comum é remeter, na melhor das hipóteses, para a adolescência.

Num ponto quase todos estão de acordo: as mulheres pensam em filhos mais cedo do que os homens, mas… nada mais errado! Homens e mulheres começam ao mesmo tempo a pensar em filhos. Bom, os pais têm desculpa de falhar a resposta neste «exame oral», apenas porque… não se podem recordar desse momento, dado que tudo acontece na idade da qual não nos lembramos de nada. É verdade. Tudo começa aos 18… meses de idade. Meses, sim!

O CAMINHO ATÉ AOS 18 MESES

É muito perturbador (e traumático) o caminho que culmina nos 18 meses. São fenómenos, vivências, sentimentos e um «peso» tão grande que, com toda a sinceridade, custa a crer como é que sobrevivemos e ainda estamos aqui – a maioria de nós, pelo menos –, razoavelmente estruturados e equilibrados. A dimensão do que se passa nessa idade é enorme e estes fenómenos determinam muito do que é a nossa vida e a nossa pessoa. Se não nos recordamos de nada, se tudo ficou bem guardado a sete-chaves na parte inconsciente da memória, é porque se revivêssemos esses momentos, quedar-nos-íamos perplexos, abismados, confusos, ambivalentes e… até aterrorizados.

Aos 18 meses, passamos da fase de nos considerarmos deuses, narcísicos, omnipotentes, com um qualquer direito divino a «ter tudo, já!», sendo os outros escravos e o mundo nosso por definição, ou seja, da sensação de «somos enormes e o mundo minúsculo», para a constatação de que somos dependentes, frágeis, vulneráveis, que as pessoas são autónomas mesmo que interdependentes, e que afinal nós é que somos minúsculos e o mundo enorme e esmagador. É a altura em que, depois de constatar que há limites e não mandamos nos outros, sentimos a noção de que existe uma coisa chamada «tempo», do princípio e do fim dos momentos e, portanto, da nossa vida. Consubstanciada na morte, o que é exclusivo do ser humano e origina a «angústia existencial».

A gestação do ser humano, para estar na altura do nascimento tão maturo e preparado como os outros mamíferos, deveria durar entre 18 e 21 meses, pelo que nascemos impreparados e dependentes.

Nos primeiros meses de vida o bebé «desenrola-se», tal e qual acontece com a sua forma física, passando de uma forma larvar, fetal, enrolada, como estava no útero materno – nosso permanente símbolo de proteção e de segurança – para uma mais esticada, endireitando a coluna e começando a dominar novos grupos musculares até andar e mexer bem os membros.

CRESCENDO DE AUTOCONFIANÇA

Pelo ano de idade, o bebé é um “bípede”, apto para muita coisa, mas tanta evolução em tão pouco tempo é, realmente, «obra» e se, por um lado, há receio e medo, pelo outro há um crescendo de autoconfiança e de sensação de poder.

A partir dos 6-9 meses, em média, dá-se um novo impulso, enorme, no desenvolvimento. É o momento em que a criança, depois de ter descoberto que o mundo é a cores (o que acontece por volta dos 4 meses) e quando já se sente segura em relação à satisfação das suas necessidades básicas, começa a relacionar-se com o mundo exterior de uma forma “descomplexada” e começa a entender os objetos na sua globalidade, dando início à «reação ao estranho».

Cerca do ano de idade, as principais competências humanas sofrem um enorme incremento e são essencialmente cinco:

• preensão fina e capacidade de segurar e de manipular objetos pequenos («tecnologia»);
• linguagem complexa, não apenas verbal mas corporal (uma das funções neurologicamente mais complexas);
• marcha bípede com possibilidade de usar as mãos para diversas funções;
• capacidade de ter sentimentos, saber que os tem e entender que os outros também os têm;
• capacidade de raciocínio, ou seja, de resolver e encontrar respostas para situações novas, usando a inteligência.

Ao mesmo tempo que sente, dentro de si, um vulcão de desenvolvimento que o conduz a patamares qualitativos superiores, o bebé vê também a sua autonomia aumentar exponencialmente e começa a se arrastar, gatinhar, andar, trepar e correr, com o poder de chegar a todo o lado.

Com este surto de desenvolvimento, o bebé sente-se cada vez melhor, mais estruturado e credenciado. A esta sensação acrescem os aplausos dos pais e restantes adultos, que o estimula e fazem visar objetivos muito superiores. Sente-se um deus, e assim surge a noção do «quero, porventura posso e se calhar até mando» que alimenta o narcisismo e omnipotência. Os pequenos escolhos que lhe surgem no caminho não beliscam a sua voracidade de saber e de explorar, nem a consciência de que é mesmo «muito bom».

Para mais, as ameaças à vida, que o poderiam assustar (fome, frio, desconforto de fraldas sujas), encontram-se controladas e o bebé sabe que os pais colmatarão e resolverão os eventuais problemas.

NEM DEUSES NEM PERFEITOS

O bebé tem um «pensamento mágico» através do qual pensa que pode fazer o que quer e lhe apetece, e comandar a vida a seu bel-prazer. É por isso que, mais tarde, quando constatar que está enganado, aceitará com dificuldade a «nova realidade», fugindo dela, inventando uma outra ou ficando irritado e agressivo quando alguém lhes demonstra que os factos são diferentes do que ele os fantasia – daí a importância da aprendizagem dos limites, da noção de que é possível ter prazer na realidade e realidade no prazer e que não somos deuses nem perfeitos, mas sim humanos a caminho do aperfeiçoamento e do melhor desempenho. Nessa altura, o bebé humano atinge o máximo do esplendor, explorando e testando o ambiente físico e o ambiente humano.

De obstáculo em obstáculo, de limitação em limitação, o nosso «pequeno deus» vai, primeiro suspeitar, depois entender que, afinal, é «apenas» um ser humano, mas que terá graus de liberdade suficientes para definir o rumo da sua vida, assim o queira, e assim encare a vida como uma janela de oportunidades, designadamente de ser feliz, sem esquecer a existência e o direito dos outros à felicidade.

A constatação de que o mundo é grande, leva a que, por outro lado, o bebé se aperceba de que essa grandiosidade também esconde perigos, e é nesta idade que surge o medo de ser declarado inútil e excedentário, consubstanciado no medo do abandono, porque sabe que se for abandonado à sua sorte não sobreviverá.

O bebé vê-se assim envolvido numa teia onde pontifica a vontade de vencer e de explorar o mundo, de o «engolir em dois dias», mas também a crescente dificuldade em o conseguir.

O ADN QUE PULSA DENTRO DE NÓS

Os ventos estão pois adversos, mas o ser humano é excecional, e não capitula. Perante esta constelação de contrariedades e obstáculos, «tiramos o coelho da cartola»: Sabendo que não poderemos chegar ao Infinito e à respetiva Eternidade «no nosso carro», então «arranjaremos boleia».

O que sobra de nós para a posteridade? O conhecimento intrínseco à nossa «animalidade» revela-nos que o ADN é o que perdura e não o nome, a cara, as impressões digitais ou até as obras, que são perecíveis. Por outro lado, somos filhos dos pais que, por sua vez, são filhos de outros pais e assim sucessivamente.

Se, então, vimos de muito longe através do nosso ADN, então é igualmente por ele que nos prolongaremos, tal como os nossos pais se prolongaram em nós.

É com esta noção instintiva que uma criança, sem que a ensinem, agarra num boneco ou num urso de peluche – que até então tratava da mesma forma que outro objeto – e o embala como a um filho. Aqui está! Fantasiamos assim os filhos, como o maior projeto da nossa vida, quer nos bonecos, quer na criatividade ou nas crianças que vemos num berço, a passear nas ruas com a ilusão de que essa criança poderia ser nossa filha – é a fantasia do prolongamento de nós próprios «até à Eternidade».

Se pensarmos em ter «milhares de filhos», então o nosso ADN prolongar-se-á para sempre. Os filhos são, assim, o nosso prolongamento, o reviver do nosso passado, o nosso presente e futuro.

TER FILHOS É UMA DECISÃO CONJUGAL

Por outro lado, ter filhos (na realidade) é uma decisão conjugal, íntima, sem que ninguém tenha o direito de dar opiniões. Numa sociedade em que ter filhos é quase «um crime», muitas pessoas que não podem ou não querem ter filhos, sentem raiva e frustração quando outros decidem ter filhos. Sentem pena de não ser eles a tê-los e manifestam agressividade. Que isso não atinja quem quer tê-los.

Um filho representa, assim, quatro coisas:
• uma pessoa frágil, que temos de cuidar, porque somos seres empáticos e solidários, pelo menos na maioria dos casos;
• uma pessoa que está sob a nossa proteção e alçada, designadamente a nível jurídico e legal;
• o nosso prolongamento e a hipótese de chegarmos à Eternidade, ou seja, um «pontapé na morte»;
• a «revisão» do nosso próprio passado, nomeadamente tudo aquilo que se encontra encerrado no nosso inconsciente e que ocorreu durante os primeiros 4 anos de vida – ao vermos os nossos filhos, revemo-nos a nós próprios, mesmo que não tenhamos consciência disso.

É tudo isto que representa um filho. A Eternidade. Um pontapé na morte. A esperança de Vida. A própria Vida. É por isso que a gravidez é, seja para mulheres, seja para homens, um fenómeno transcendente e de uma dimensão que ultrapassa a simples frase «vamos ter um bebé».

Agora, leitor ou leitora… já sabe porque é que temos filhos!

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