Alimentos não seguros durante a gravidez

Escrito por: Iolanda Veríssimo
Com os depoimentos e revisão de: Dra. Maria Ana Carvalho, Nutricionista

Saiba quais os alimentos e bebidas a evitar durante a gravidez e conheça os cuidados de higiene alimentar que devem fazer parte do seu dia-a-dia. 

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Durante a gravidez, as alterações no sistema imunitário tornam-na mais vulnerável às doenças de origem alimentar, e é natural que tenha de mudar alguns hábitos para poder disfrutar deste período em segurança.

Uma alimentação equilibrada, variada e completa é essencial para uma gravidez saudável, mas é importante que conheça os alimentos e substâncias que deve limitar ou mesmo banir totalmente da sua alimentação neste período. Por exemplo, os alimentos crus podem conter uma variedade de bactérias, vírus e parasitas, enquanto bebidas como o álcool podem comprometer o desenvolvimento cognitivo da criança.

Em entrevista à Nove Meses, a nutricionista Maria Ana Carvalho identificou os alimentos potencialmente perigosos durante a gravidez e deixou conselhos sobre os principais cuidados na preparação e confeção dos alimentos, para que possa fazer escolhas mais seguras e saudáveis.

Álcool

O primeiro inimigo a evitar durante a gravidez é o álcool. Uma vez que não existe uma dose mínima segura, o consumo de bebidas alcoólicas é totalmente desaconselhado durante este período.

Mesmo o consumo moderado e ocasional de cerveja, vinho ou licor oferece riscos, já que o álcool pode atravessar a barreira placentária e entrar na corrente sanguínea do feto, interferindo no crescimento e desenvolvimento do bebé.

Em casos extremos, o consumo de álcool pode dar origem ao síndrome alcoólico fetal, que compromete o desenvolvimento da criança, sobretudo ao nível cognitivo.

Cafeína

A grávida deve limitar o seu consumo de cafeína a 200 mg por dia. Para saber o que esta quantidade representa nos seus consumos do dia-a-dia, pode guiar-se pela informação sobre os teores de cafeína que consta na Roda dos Alimentos.

Teores Médios de Cafeína (mg)

Lembre-se que a cafeína não está presente apenas no café, mas também em bebidas como a coca-cola ou o chá. Um café curto tem cerca de 104 mg de cafeína, uma chávena de chá ronda os 36 mg, enquanto uma lata de coca-cola inclui cerca de 46 mg. Tendo a noção destes valores, faça a sua própria gestão da quantidade de cafeína que ingere ao longo do dia, tendo o cuidado de não ultrapassar os 200 mg.

Açúcar

Uma das principais recomendações da nutricionista Maria Ana Carvalho passa por limitar o consumo de alimentos ricos em açúcar de absorção rápida, como os doces, os bolos, ou os refrigerantes. «A glucose – comumente designada por açúcar - é rapidamente absorvida pelo bebé e pode ter efeitos nefastos se consumida em excesso. Normalmente, recomendo só para ocasiões especiais e preferencialmente a seguir às refeições, para que a absorção seja mais lenta».

Higiene Alimentar

Os cuidados na preparação e confeção dos alimentos são especialmente importantes durante a gravidez, pois deles depende a segurança da grávida e do bebé no que respeita a doenças de origem alimentar como a toxoplasmose, a salmonelose e a listeriose.

Carne e peixe crus

A toxoplasmose transmite-se através da ingestão de um parasita denominado toxoplasma gondii, presente no solo, na água ou em alimentos contaminados. No Homem, a toxoplasmose é normalmente assintomática ou associada a sintomas ligeiros.

No entanto, no contexto de uma gravidez, pode ter consequências graves para o feto. Segundo Maria Ana Carvalho, este risco exige cuidados acrescidos em termos de higiene alimentar. «Se o solo estiver contaminado com o parasita, todos os alimentos que estiverem em contacto com o solo e sejam consumidos crus podem aumentar o risco de infeção», frisa. 

Dentro do rol de alimentos potencialmente transmissores de toxoplasmose estão a carne crua ou mal cozinhada, e os frutos e hortícolas crus. «As grávidas não podem comer carne crua ou mal cozinhada, porque os animais podem ter ingerido oocistos do parasita e consequentemente serem veículos de transmissão do parasita», esclarece a nutricionista.

O consumo de peixe cru e fumado, de marisco cru e sushi também não é aconselhado durante a gravidez pelo risco de estar contaminado com bactérias que podem pôr em risco o feto. Outra das questões muitas vezes colocadas pelas grávidas prende-se com o consumo de fiambre e outros produtos de charcutaria e salsicharia. Segundo Maria Ana Carvalho, «é importante que a grávida veja sempre no rótulo do alimento se este é fumado, e se for, deve rejeitá-lo». O fiambre que é cozido no forno pode ser consumido, desde que não tenha muito tempo de prateleira.

Avaliar o risco de toxoplasmose

A toxoplasmose não apresenta sintomas típicos, como a varicela, por exemplo. Pode manifestar-se como uma gripe ligeira e passar relativamente despercebida. É por isso que deve ser alvo de uma vigilância apertada, ao longo da gravidez, através de exames regulares específicos.

No início da gravidez, o médico prescreve um exame de rastreio da toxoplasmose, com vista a detetar se o organismo da grávida já esteve em contacto com o parasita toxoplasma gondii, tendo desenvolvido anticorpos para se proteger (imunização). Se o resultado der negativo, será necessário adotar medidas de prevenção para evitar a doença durante o período de gestação.

Para além dos cuidados de higiene alimentar, uma das precauções importantes está relacionada com os animais de estimação, em particular, os gatos. Não deve ser a grávida a mudar a areia do animal durante este período, uma vez que as fezes do gato podem ser um meio de infeção.

Lave muito bem os vegetais e a fruta

Os produtos hortícolas e os frutos são essenciais na alimentação da grávida (ver imagem), contribuindo com vitaminas, água e minerais, para além de constituírem importantes fontes de fibra, que ajuda a prevenir a obstipação.

No entanto, alimentos como a alface, a cenoura, a maçã, entre outros vegetais e frutos, podem conter o parasita responsável pela toxoplasmose e constituir um perigo se forem consumidos crus, sem terem sido devidamente desinfetados.

É por isso que, como recomenda Maria Ana Carvalho, «todos os produtos hortícolas e frutos que são consumidos crus devem ser lavados durante pelo menos 15 minutos com um produto apropriado para a lavagem de alimentos, que contenha um pouco de lixívia». Se se sentir mais segura, pode optar por descascar cuidadosamente os vegetais e a fruta crua.

Nova Roda dos Alimentos

Rejeite as sobremesas com ovos crus

Os ovos crus ou mal cozidos e os produtos que os contenham - como a mousse de chocolate ou a maionese caseiras - podem causar intoxicações alimentares devido à bactéria da Salmonella. Quando cozinhar ovos, certifique-se de que a gema e a clara estão firmes e sólidas e, nas refeições fora de casa, opte por alimentos que não contenham ovos crus.

Para além dos ovos, a carne de aves, como o frango ou o peru, pode ser outro dos meios de transmissão da Salmonella se estiver mal cozinhada. «A Salmonella está muito associada à carne de aves e aos ovos, e é daí que surge a recomendação de que as grávidas não devem pedir sobremesas feitas com ovos crus quando vão a um restaurante. Não há problema com as sobremesas que tenham ovos cozinhados, mas as sobremesas produzidas com ovos inteiros crus devem ser evitadas», aconselha Maria Ana Carvalho.

Veja o tempo de prateleira dos alimentos

O consumo de refeições com longo tempo de prateleira é, segundo Maria Ana Carvalho, a principal causa de listeriose – uma infeção provocada pela ingestão de alimentos contaminados pela bactéria Listeria monocytogenes, que atinge em especial os recém-nascidos, podendo provocar no bebé infeções oculares e cutâneas, septicémias, entre outros problemas.

«Se está grávida, deve evitar ao máximo alimentos confecionados com longo tempo de prateleira. Fora de casa, em cadeias de restauração que vendam alimentos como wraps, massas frescas, couscous, etc., deve rejeitar os alimentos que estejam há mais de um dia na prateleira», recomenda a nutricionista.

Queijos de pasta mole

Também associados à Listeria, são de evitar os queijos de pasta mole como o brie, o camembert, o mascarpone e outros queijos deste tipo. Apesar de ser uma infeção rara, mesmo as formas mais ligeiras de Listeria podem provocar aborto ou morte fetal. Os queijos de pasta semidura e dura podem ser consumidos, desde que tenham sido produzidos com leite pasteurizado.

Peixes gordos

Há alguns tipos de peixe e marisco que contêm níveis potencialmente perigosos de metil-mercúrio - uma forma de mercúrio que pode causar danos no feto e prejudicar o desenvolvimento do sistema nervoso do bebé.

De acordo com Maria Ana Carvalho, uma vez que o consumo de peixe na gravidez é muito importante, particularmente o de peixes gordos, pela riqueza em ómega 3, a grávida deve dar prioridade aos peixes com menor teor de metil-mercúrio, mas não deixar de incluir este pescado na sua alimentação.

«O consumo de peixes gordos não é prejudicial, mas não deve exceder as duas vezes por semana. Entre os peixes gordos, a grávida deve preferir aqueles que têm menor teor de metil-mercúrio, como o salmão e a sardinha. O peixe-espada, particularmente o peixe-espada preto e o atum, apresentam elevados teores de metil-mercúrio e por isso devem ser evitados», esclarece. Quanto ao marisco, quando cru, também deve ser evitado.

Conselhos da nutricionista

- Exclua totalmente o álcool do seu dia-a-dia

- Limite o consumo de cafeína a 200 mg por dia.

- Reserve o consumo de alimentos açucarados para ocasiões especiais ou dias de festa.

- Evite o consumo de carne, peixe, ovos e marisco crus, incluindo o sushi.

- Lave sempre os produtos hortícolas e a fruta durante pelo menos 15 minutos, com um produto apropriado para os alimentos.

- Rejeite os produtos de charcutaria e salsicharia que sejam fumados.

- Recuse os alimentos com longo tempo de prateleira.

- Retire da sua alimentação todos os queijos de pasta mole.

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